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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pierre Bonnard

Nu dans le bain au petit chien, 1941-1946
Carnegie Museum of Art, Pittsburgh 
© Artists Rights Society (ARS), New York/ADAGP, Paris. Photo Credit: Richard Stoner


Certo dia, em 1893, Pierre Bonnard ficou de olho numa moça que desembarcava de um bonde parisiense e, atraído pela sua fragilidade e pela sua beleza pálida, resolveu segui-la até o lugar em que trabalhava, uma empresa de pompes fúnebres, onde ela passava o dia todo cozendo pérolas em coroas para funerais. Com isso, desde o início, a morte introduziu a sua fita preta na trama de suas vidas. Bonnard tratou logo de se apresentar — suponho que, na Belle Époque, essas coisas fossem feitas com naturalidade e aplomb —; em pouco tempo, a moça tinha deixado o emprego e tudo o mais na vida para ir morar com ele. Disse-lhe que se chamava Marthe de Méligny, e que tinha dezesseis anos. Na verdade, ele só foi descobrir isso mais de trinta anos depois, quando afinal decidiu se casar com ela: o seu nome era Maria Boursin, e, quando se conheceram, ela não tinha dezesseis anos, mas sim uns vinte e poucos, como o próprio Bonnard. Ficaram juntos nos bons e nos maus momentos, ou, melhor dizendo, nos maus momentos e nos piores ainda, até a morte de Marthe, cerca de cinqüenta anos mais tarde. Numa biografia de Bonnard, Thadée Natanson, um dos primeiros mecenas do pintor, evoca, com rápidos toques impressionistas, a figura um tanto etérea de Marthe, referindo-se ao seu ar selvagem de pássaro, movendo-se na ponta dos pés. Ela era enigmática, ciumenta, incrivelmente possessiva; tinha mania de perseguição e era uma grande e dedicada hipocondríaca.
Em 1927, Bonnard comprou uma casa, Le Bosquet, na modesta cidadezinha de Le Cannet, na Côte d’Azur, onde foi morar com Marthe, num isolamento atormentado, só interrompido esporadicamente, até que ela morreu, quinze anos mais tarde. Em Le Bosquet, ela adquiriu o hábito de passar horas e horas no banho, e foi no banho que Bonnard a pintou inúmeras vezes, continuando com a série mesmo depois da sua morte. As Baignoires são o apogeu triunfante do trabalho de toda a sua vida. Na tela Nu dans le bain au petit chien, iniciada em 1941, um ano antes da morte de Marthe, e só concluída em 1946, ela está ali, em tons de rosa, lilás e ouro, uma deusa do mundo flutuante, esmaecida, atemporal, imprecisamente morta ou viva, e, ao seu lado, no chão de ladrilhos, o cachorrinho marrom, seu companheiro, um bassê, acho eu, atento e aninhado em seu colchão ou talvez num retângulo de sol entrando por alguma janela que não vemos. O pequeno cômodo, que é o seu refúgio, vibra ao seu redor, pulsando em suas cores. O seu pé esquerdo, esticado na extremidade de uma perna incrivelmente longa, parece empurrar a banheira, entortando-a do lado esquerdo e, mais abaixo, desse mesmo lado, no mesmo campo de força, o chão também está fora de alinhamento, parecendo prestes a escorrer pelo canto, não como um chão, mas como uma poça movente de água mosqueada. Nessa cena, tudo se move; tudo se move na imobilidade, num silêncio aquoso. Pode-se ouvir uma gota caindo, uma ondulação da água, um suspiro tremulante. Uma mancha avermelhada na água, junto ao ombro direito da mulher que se banha, bem pode ser ferrugem, ou até mesmo sangue já seco. A sua mão direita repousa sobre a coxa, como se, ao virá-la, houvesse estancado em meio ao gesto, e lembro das mãos de Anna em cima da mesa, naquele primeiro dia em que fomos ao consultório de Mr. Todd; as suas mãos desamparadas, com as palmas voltadas para cima, como se pedindo alguma coisa a alguém à sua frente, mas um alguém que não estava ali.

John Banville (O mar, tradução de Maria Helena Rouanet)


Nu dans la baignoire, 1925
Tate Gallery, London
© ADAGP, Paris and DACS, London 2002



Baignoire (Le Bain), 1925
Tate Gallery, London
© ADAGP, Paris and DACS, London 2002