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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Da leveza


Há mais de um mês, quando vi esta foto no site So Yours for the Taking, imediatamente fui transportada à minha infância no Méier, bairro do subúrbio carioca. Àqueles que me conhecem e sabem que sou descendente de orientais: não, eu não fiquei com saudades da primeira turma ou da primeira professora de balé, até porque foi há quase três meses que tive a primeira experiência como aluna não só de balé como de dança.

Olhando a foto, me dei conta de que a tal "leveza" de que tanto se fala quando se trata de dança não é, simplesmente, a leveza física. É claro que o preparo físico e a técnica ajudam, mas não é só isso. Falo da leveza enquanto estado de espírito. E devo confessar que, há mais ou menos um mês, eu comecei a sentir (e muito) a falta que essa leveza faz.

Isso fez com que eu ficasse desanimada. Não queria ler, muito menos escrever. Eu estava me sentindo pesada. Até o balé, que era para ser uma fonte de alegria e prazer (apesar das dificuldades "técnicas"), estava me cansando.

Comecei a faltar às aulas, coisa que nunca tinha feito em dois meses. Primeiro foi uma gripe, depois uma dor na perna esquerda, depois o pessoal do gás que apareceu sem avisar.

Eu sabia que não era tristeza, não era estresse. Era insatisfação. Eu estava indo às aulas de balé duas vezes por semana e sentia que não estava mais valendo a pena. Como assim, "valer a pena"? Por acaso, fazer aulas de dança é algo penoso, mas necessário? Fiz a mim mesma estas perguntas e cheguei a uma resposta: decididamente, não.

Descobri que o que estava me cansando era a pressa. Pressa que as pessoas (umas mais, outras menos) têm de ensinar, de aprender, de atingir metas, resultados (de preferência, bem visíveis). Quando decidi fazer balé, algo que nunca tinha me passado pela cabeça antes do início deste ano, era justamente para aprender que aprender algo demanda tempo. E, sobretudo, paciência, algo que não faz parte da minha natureza agitada e irrequieta.

Eu sou do tipo que aprende, literalmente, passo a passo. Posso demorar, mas quero aprender e (para) fazer direito. Preciso conquistar, desenvolver, ter uma base sólida para ganhar autoconfiança. Não sou da turma do "mais ou menos". Procuro saber o que, por que e para que estou fazendo, seja uma conjugação verbal em grego arcaico ou um arroz com feijão. E é esse processo de aprendizado, de contextualização, de reflexão, de diálogo que me dá prazer. Tenho paixão e curiosidade de aprender, seja o que for, seja quanto tempo for preciso. E se essa paixão para de ser alimentada, se essa curiosidade morre, é hora de repensar, refletir e agir.

Eu pensei, repensei, refleti e agi. Troquei de escola de balé, terminei, enfim, de ler Anna Kariênina (falo dessa experiência homérica mais tarde) e estou voltando a escrever. O tempo (e Tchekhov) tem me ajudado. Os dias têm sido ensolarados, amenos e agradáveis. Depois de semanas literalmente cinzentas e frias, estou, enfim, relaxando. No fundo, eu quero ser como essas meninas, ou melhor, continuar sendo, pelo menos em parte e por dentro, aquela menina que fui um dia.

Até breve!

Foto: Standing on thin air, de Lincoln~