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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Paris, Tóquio

Um armeiro constrói um imenso Buda deitado em uma ilha, certo de que nenhuma alma errará solitária e sem encontrar repouso após a morte. Um adolescente sai à procura do irmão mais velho, desaparecido sem deixar rastros, e se aventura por uma Tóquio moderna e, ao mesmo tempo, violenta. Um homem "ouve" uma estranha relação entre ele, os sons de uma megalópole e duas mulheres. Um casal recém-separado de cineastas decide fazer um último filme e troca, pelo correio, imagens de suas novas vidas cotidianas como se fossem cartas de amor - ela, de Tóquio, ele, de Paris.

O que esses personagens têm em comum é o fato de terem sido criados pelo escritor, poeta, cineasta e músico japonês Hitonari Tsuji. Praticamente desconhecido no Brasil, ele é um autor premiado no Japão e na França, onde mora há quase dez anos. Mais precisamente, em Paris, cidade que o inspirou a rodar seu mais recente filme, Paris Tokyo Paysage.

O trabalho de Tsuji e de outros artistas - famosos ou anônimos - é uma prova de que a conexão Tóquio-Paris-Tóquio vai muito além dos aviões que despejam, diariamente, turistas afoitos por compras em lojas de grife, experiências gastronômicas e passeios inesquecíveis cuidadosamente registrados por câmeras de última geração. Muito antes de Kenzo, Miyake, Yamamoto e Kawakubo fazerem sucesso na capital da moda e revolucionarem o conceito do vestir, os impressionistas, na segunda metade do século XIX, já flertavam com a arte das estampas japonesas ou ukiyoe (浮世絵) e com o que chamavam de "mundo flutuante" (浮く= uku = flutuar; 世 = yo = mundo; 絵 = e = desenho): mulheres de quimono, casas de chá, pontes e paisagens retratados por uma perspectiva em que as figuras pareciam "saltar" da superfície do papel, antecipando a estética do cartum e do mangá.

A relação entre personagens e lugares é o que norteia o trabalho de Tsuji e de outros diretores, como Wim Wenders. Wenders também se embrenhou pelas ruas de Tóquio em busca de imagens do cineasta japonês Yasujiro Ozu e o resultado foi o filme Tokyo ga: um registro, um testemunho pessoal das transformações radicais da sociedade japonesa em meio ao ritmo caótico da cidade. Não por acaso, ele tem no currículo outros títulos que são, literalmente, nomes de lugares: Paris, Texas; Der Himmel über Berlin (O céu sobre Berlim, título original de Asas do desejo) e O céu de Lisboa, cujo personagem principal, para fechar o ciclo de coincidências, é, justamente, um engenheiro de som que vai a Lisboa e, em meio ao mistério do desaparecimento de um amigo, descobre-se apaixonado pela sonoridade do lugar.


Paris 

 Tóquio

 Tóquio

Paris

O que une personagens e pessoas a lugares? Talvez o resgate de uma memória, de um passado, de uma origem. Ou a busca de uma identidade, de uma relação, e a descoberta de que não há uma, mas muitas delas.

Fotos: Cenas de Paris Tokyo Paysage