Páginas

sábado, 3 de março de 2012

Milton e Manaus

O verdadeiro lugar onde o escritor se manifesta em mim é no espaço da memória, quase sinônimo de imaginação. Tudo que escrevi até hoje está ligado às imagens da minha infância e adolescência em Manaus. Essa memória contém tudo que é necessário ao romancista. É isso que provoca uma aflição, um desejo de escrever. Quem viveu intensamente até os vinte anos, como eu, é só esperar mais uns quinze para começar a escrever. 
Nunca cultuei o lugar de escrever. Principalmente porque morei em sete cidades ao longo de uns vinte anos e mesmo nessas cidades eu mudava bastante. Nunca tive um lugar fixo e me habituei a isso. Hoje em dia basta um lugar isolado com o mínimo de tranqüilidade. Até porque o verdadeiro lugar está no imaginário. O impulso da escrita, da entrega ao texto, depende mais de um estado de espírito que de um lugar específico. Isolamento e concentração. É tudo que preciso.  
Escrevo à mão por causa da minha lentidão. O contato direto com as palavras é mais adequado ao ritmo. O computador seria muito rápido. No computador reescrevo, mas as idéias originais são escritas à mão. No papel há espaço para a dispersão, também necessária. Se um parágrafo está difícil, desenho, escrevo bobagens, brinco com as palavras. O computador não permitiria. A máquina me cobra exatidão e velocidade o tempo todo. Sou inexato e lento. 
Milton Hatoum (O lugar do escritor, Eder Chiodetto)

Li Órfãos do Eldorado no avião que me levava de Brasília para Manaus. Não sei se gostei tanto de Manaus por causa do livro ou se passei a gostar mais ainda do livro e do autor por causa de Manaus. Só sei que Milton e Manaus, como muitas pessoas e lugares, tornaram-se indissociáveis. Como carne e osso, como dedo e unha.

Nenhum comentário: