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terça-feira, 27 de março de 2012

O efeito Pina




Eu sempre acreditei que o que faz um artista ser grande é a capacidade, a ousadia, a coragem de fazer alguém pensar, querer sair nem que seja por um instante de seu lugar, de si mesmo e se aventurar. Um grande artista é aquele que, à sua maneira, convida alguém a se unir a ele em sua busca, mas essa busca, na realidade, é de quem se deixa levar, de quem se deixa conduzir.

Em algum momento de Pina, um bailarino da companhia conta que a coreógrafa, uma vez, disse: "é preciso procurar, mesmo sem saber o quê". Essa frase, para mim, é o que de melhor pude aprender com o documentário.

Em outro momento, vendo aqueles corpos em movimento, expressando visões, idéias, sentimentos, emoções, enfim, o humano, me lembrei do que o professor de balé disse no começo das aulas: dançar é como desenhar no espaço. Logo depois, outro bailarino diz: "Pina era uma pintora". E aí eu pensei: o espaço é uma grande tela, onde desenhamos com o corpo linhas, traços, e a força, a ênfase, a carga que damos aos movimentos é como as tintas e as cores, os efeitos de sombra e luz. A união de todos os elementos - bailarinos, coreografia, música, movimentos, cenário, luz, figurino etc. - é o quadro.

Juntando tudo isso, por fim, pensei: se eu fosse dançar um quadro, se um quadro fosse dançado, que quadro seria esse? Um Van Gogh, um Matisse, um Chagall, um Modigliani, um Klimt, um Magritte? Ou um Degas, um Cézanne, um Renoir? Ou um Brueghel, um Bosch, um Vermeer, um Friedrich? Ou, ainda, um Botticelli, um Velásquez, quem sabe um Caravaggio?

E você? Que quadro dançaria?


Obs. 1: Antes de enveredar pelo cinema, o diretor Wim Wenders quis (e estudou para) ser pintor.

Obs. 2: A trilha sonora do documentário é maravilhosa, mas isso é assunto para um outro post.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Miss Potter e Peter Rabbit

Em um fim de semana de 2007, tivemos o prazer de receber a visita de Beatrix Potter, Peter Rabbit e seus amigos. Eu já havia passado por eles algumas vezes na locadora, porém sem reconhecê-los até o D. trazer para casa um DVD chamado Miss Potter.

O filme é uma linda biografia de Beatrix, criadora de um dos personagens mais queridos da literatura. Peter é muito popular entre crianças e adultos em muitos países e foi em um deles — no Japão — onde o vi pela primeira vez.

Ele nasceu na Inglaterra, terra encantada de tantos escritores, ilustradores e artistas da imaginação, em uma carta escrita por Beatrix ao jovem amigo Noel Moore em 1893. Na carta, ela diz:

Meu querido Noel,
Eu não sei o que escrever a você, então, vou contar uma história sobre quatro coelhinhos cujos nomes são Flopsy, Mopsy, Cotton-tail e Peter...

E assim começa a longa aventura de Peter e seus muitos amigos: a pata Jemima Puddle-duck, o gato Tom Kitten, o sapo Jeremy Fisher, o coelho Benjamin Bunny, a porca-espinho Mrs. Tiggy-winkle e outros. Desde 1902, ano de sua primeira "aparição" nas livrarias, até hoje, The Tales of Peter Rabbit e os 22 títulos da série são os livros infantis mais vendidos em todo o mundo. Um belíssimo exemplo de uma belíssima relação entre autor, editor e leitor.

Para quem estiver curioso e quiser sentir o gostinho do filme, um clipe com a canção tema do filme, na linda voz de Katie Melua.

Um ótimo e divertido fim de semana a todos!



There's something delicious about writing the first words of a story. You can never quite tell where they'll take you.

Escrever as primeiras palavras de uma história tem algo de delicioso. Você nunca sabe aonde exatamente elas vão levar você.
Beatrix Potter
© 2012 Frederick Warne & Co Limited

quinta-feira, 22 de março de 2012

A dimensão (humana) do balé

Que o balé é lindo e emociona todo mundo já sabe. Assim como sabe que tudo que é lindo é fruto de muito trabalho. Muitas vezes, a ênfase é dada ao resultado - seja aos belos figurinos e cenários, ao palco, à beleza física e à performance dos bailarinos, às noites de estréia, aos concursos. Ou seja, à dimensão do balé como espetáculo. Mas há o dia a dia que os bailarinos enfrentam, as dúvidas, os medos, as tristezas, as angústias, o cansaço - a dimensão humana do balé. Porque nem só de sapatilhas, tutus e sorrisos são feitos os sonhos de quem quer seguir adiante e estar, ainda que sobre pontas, com os pés firmes no chão.


Fotos: Patricia Stavis

Para quem se interessar, duas reportagens (com muitas fotos) feitas na Escola do Teatro Boshoi em Joinville (SC) que dão uma idéia da dimensão humana do balé: Balé: bastidores da profissão (foto 1) e Dançar para crescer (foto 2).

O meu "treino diário" é fazer exercícios para fortalecer a musculatura (sobretudo dos pés e pernas) e alongamento. Como barra, uso o encosto de uma cadeira ou uma prateleira da minha estante de livros (que, por ser grande e pesada, não oferece riscos de acidentes). Para relaxar, massageio a planta dos pés subindo em bolinhas de tênis. Tudo em casa e sozinha. Quando surgem dúvidas, tiro-as com o professor nos dias de aula.

Continuo usando legging, blusa por cima do top e meia nas aulas. Embora tenha comprado um par de sapatilhas de meia-ponta, só as uso em casa para ir me acostumando aos poucos. Isso não me incomoda, já que o professor aconselha aos iniciantes usarem meias nas aulas e eu não estou com a menor pressa. Neste caso, o figurino pouco importa. Basta a vontade de aprender.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Bossa nova

Outro dia, minha mãe, que adora bossa nova e é fã de Nara Leão, me perguntou se eu conheço uma cantora chamada Lisa Ono. Eu já tinha ouvido falar da cantora e sabia que ela, embora brasileira, é mais conhecida no exterior. Principalmente no Japão, onde a MPB, em especial a bossa nova, é um dos gêneros musicais mais tocados e amados e é sinônimo de bom gosto e sofisticação.

A pergunta da minha mãe me fez repensar um assunto que sempre me fascinou: o olhar (e/ou o ouvir) estrangeiro. Fazendo uma pesquisa rápida de livros sobre bossa nova, percebi que o pouco que se publicou em português já foi traduzido para o inglês, francês, japonês etc. Isso sem levar em conta textos de encartes de CD's e artigos de revistas e outras publicações especializadas em música escritos originalmente em língua estrangeira. Querendo saber mais, descobri que um dos poucos livros sobre o assunto com textos e fotos é de um autor francês.


Ou seja, a MPB, em particular a bossa nova, tem uma sonoridade - e indo mais longe - um significado diferente e especial aos ouvidos estrangeiros. A tão famosa "musicalidade brasileira" é, para um estrangeiro, algo que o fascina, que o instiga - mais até do que a nós, nascidos e criados em meio a essa "musicalidade" toda e a cujos ouvidos, já tão acostumados, ela nem soa tanto como música. Como disse o poeta alemão Novalis, "tudo a uma distância vira poesia". Para nossa sorte e por uma feliz coincidência, além de Lisa Ono, Fernanda Takai gravou, há alguns anos, canções de Nara Leão e até uma versão, em japonês, de O barquinho.

Falando em bossa nova e enquanto escrevia este texto, me lembrei de uma amiga carioca que ama MPB e, mais ainda, Tom Jobim, e acho que ela vai gostar dessas capas das edições japonesas do livro Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova, de Ruy Castro, e Nara Leão: uma biografia, de Sérgio Cabral.


sábado, 17 de março de 2012

Duas semanas

Uma das coisas mais legais que tenho aprendido com o balé é que, para se aprender qualquer coisa, é preciso ingenuidade e ousadia. Porque só um ingênuo consegue acreditar que irá conseguir o que quer, mesmo ainda sem saber nem como nem quando isso irá acontecer. Mas a ingenuidade precisa da ousadia, daquele impulso que parece não ter explicação e que nos empurra para o desconhecido, nos conduz por mares nunca dantes navegados. Deve ser por isso que as crianças aprendem tão bem e tão rápido.

Esta semana, tenho andado de metrô na companhia dos personagens de A dama do cachorrinho e outros contos, de Tchekhov (apresentado, traduzido e posfaciado por Boris Schnaiderman). São textos curtos que dispensam qualquer comentário, mas um, em especial, me comoveu a tal ponto que lágrimas discretas brotaram no canto dos olhos ao término da leitura. Chama-se Um dia no campo (Cenazinha). Sem dúvida, é uma das coisas mais lindas que já li em toda a minha vida e que carregarei comigo para sempre, no coração.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Tolstói

Agora, lembrando-me daquele tempo, vejo claramente que minha fé, ou aquilo que, além dos instintos animais, impulsionava minha vida, minha única e verdadeira fé, era a fé no autoaperfeiçoamento. Mas em que consistia o autoaperfeiçoamento e qual era seu objetivo eu não saberia dizer. Procurava aperfeiçoar-me intelectualmente — estudava tudo o que podia e tudo o que a vida punha diante de mim; procurava aperfeiçoar minha força de vontade — criava regras para mim mesmo e me esforçava para segui-las; aperfeiçoava-me fisicamente, com a ajuda de diferentes exercícios aprimorava minha força e destreza, e através de diversas privações aprendia a ser mais resistente e a ter mais paciência. Tudo isso eu considerava autoaperfeiçoamento.

Liev Tolstói (Os últimos dias, tradução de Anastassia Bytsenko e outros)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Se Tchekhov e Hemingway fossem bailarinos...

Write as much as you can!! Write, write, write till your fingers break! 
Anton Tchekhov

Digamos que ele [aspirante a escritor] devia enforcar-se por ter descoberto que escrever bem é tremendamente difícil. Depois, devia ser esquartejado sem piedade e forçado por si próprio a escrever tão bem possível para o resto da vida. Pelo menos, teria logo a história do enforcamento para começar.
Ernest Hemingway


Parece que a literatura e o balé - assim como tudo que exige e demanda esforço, dedicação, concentração, alma, corpo, força, resistência, tempo e paciência - têm muito mais em comum do que se imagina. Além do amor e do trabalho, é necessário entrega.

quinta-feira, 8 de março de 2012

En pointe!


EN POINTE! from The Apiary on Vimeo.

Hoje eu comprei meu primeiro par de sapatilhas (meia-ponta) e, pensando em como costurar os elásticos, encontrei por acaso este vídeo, que eu adorei.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Uma jóia*



Assisti a este vídeo no blogue da professora de balé Renata Sanches e fiquei maravilhada. Impossível não se deixar encantar pela leveza, graciosidade e elegância dos bailarinos. O vídeo foi feito por um professor da academia do balé Bolshoi, da Rússia. Eu, que anteontem tive a minha primeira aula de balé clássico, estou cada vez mais convencida de que, se os sonhos fossem uma dança, essa dança seria o balé.

Dedico esta jóia a todos os bailarinos, de todas as idades, de todos os lugares, que vêem o balé não só como uma instituição, uma escola, mas como um aprendizado de vida.

*De acordo com a nova ortografia, o correto é "joia". Mas como este espaço é pessoal e eu prefiro a grafia antiga, escrevi "jóia" (o mesmo vale para quaisquer palavras usadas em textos de cunho pessoal).

O delírio de Brás Cubas

Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. (...) Os séculos desfilavam em turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim - flagelos e delícias -, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo.  
(...)

Cada século trazia a sua porção de sombra e luz, de apatia e de combate, de verdade e erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia de Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último - o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente, um nevoeiro cobriu tudo - menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel... 
Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Extrapolar a página

Pegue um livro de poesia. Abra numa página qualquer. Escolha um verso, transcreva-o no papel e prossiga a partir dali. Um amigo meu chama isso de “extrapolar a página”. A vantagem é que, se escolhermos um bom verso, já temos meio caminho andado. “Morrerei em Paris, num dia chuvoso. (…). Será numa quinta-feira”, do poeta Cesar Vallejo: “Morrerei numa segunda-feira às onze horas; numa sexta-feira às três da tarde, dirigindo um trator em Dakota do Sul; numa delicatessen no Brooklyn”, e assim por diante. Sempre que se sentir travado, reescreva a primeira frase e e siga em frente. Isso lhe dá a chance de começar de novo e tomar uma nova direção - “Não quero morrer e não importa se for em Paris, Moscou ou Youngstown, Ohio”. 
 Natalie Goldberg (Escrevendo com a alma, tradução de Camila Lopes Campolino)

Imagem e beleza

A beleza não está e não se encerra na imagem. A beleza está para além da imagem. A imagem nada mais é do que uma ferramenta. A imagem desperta, provoca sentidos, sensações. Quem vê beleza apenas na imagem torna-se escravo da imagem. A imagem é um buraco na fechadura. Quem se detém na imagem admira nada mais do que um buraco. É como contentar-se em ficar parado diante de uma porta, quando não só é possível abri-la como entrar em um outro mundo.

A beleza não se limita a uma experiência estética. A beleza é filosofia. Não é somente com os olhos e com o coração que se chega à beleza, mas com o pensamento.

Tempo e memória

I wanted to write a book about time and memory, about what time does to memory, how it changes it, and what memory does to time. It's also a book about discovering at a certain point in your life that some key things that you've always believed were wrong. This is something that I started thinking about a few years ago, and it's probably one of the preoccupations that you have as you age. You have your own memories of life, you've got the story that you tell mainly to yourself about what your life has been. And every so often these certainties are not. Something happens, someone reports something from 20 or 30 years ago, and you realize that what you'd believed is not the case.  
Julian Barnes (sobre seu último livro, The sense of an ending) 

Fonte: PBS Newshour

sábado, 3 de março de 2012

Milton e Manaus

O verdadeiro lugar onde o escritor se manifesta em mim é no espaço da memória, quase sinônimo de imaginação. Tudo que escrevi até hoje está ligado às imagens da minha infância e adolescência em Manaus. Essa memória contém tudo que é necessário ao romancista. É isso que provoca uma aflição, um desejo de escrever. Quem viveu intensamente até os vinte anos, como eu, é só esperar mais uns quinze para começar a escrever. 
Nunca cultuei o lugar de escrever. Principalmente porque morei em sete cidades ao longo de uns vinte anos e mesmo nessas cidades eu mudava bastante. Nunca tive um lugar fixo e me habituei a isso. Hoje em dia basta um lugar isolado com o mínimo de tranqüilidade. Até porque o verdadeiro lugar está no imaginário. O impulso da escrita, da entrega ao texto, depende mais de um estado de espírito que de um lugar específico. Isolamento e concentração. É tudo que preciso.  
Escrevo à mão por causa da minha lentidão. O contato direto com as palavras é mais adequado ao ritmo. O computador seria muito rápido. No computador reescrevo, mas as idéias originais são escritas à mão. No papel há espaço para a dispersão, também necessária. Se um parágrafo está difícil, desenho, escrevo bobagens, brinco com as palavras. O computador não permitiria. A máquina me cobra exatidão e velocidade o tempo todo. Sou inexato e lento. 
Milton Hatoum (O lugar do escritor, Eder Chiodetto)

Li Órfãos do Eldorado no avião que me levava de Brasília para Manaus. Não sei se gostei tanto de Manaus por causa do livro ou se passei a gostar mais ainda do livro e do autor por causa de Manaus. Só sei que Milton e Manaus, como muitas pessoas e lugares, tornaram-se indissociáveis. Como carne e osso, como dedo e unha.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O escritor segundo Pamuk

O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou a tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro; cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. Esse homem - ou essa mulher - pode usar uma máquina de escrever, aproveitar as facilidades de um computador ou escrever com caneta no papel, como venho fazendo há trinta anos. Enquanto escreve, pode tomar chá ou café, ou fumar. De vez em quando, pode se levantar e olhar pela janela as crianças que brincam na rua e, se tiver sorte, contemplar algumas árvores e uma bela vista, ou apenas topar com uma parede escura. Pode escrever poemas, peças de teatro ou romances, como eu. Mas todas essas particularidades só vêm depois da decisão crucial de sentar-se diante da mesa e, pacientemente, voltar-se para dentro. Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma - com paciência, obstinação e alegria. Enquanto passo os dias, os meses, os anos sentado à minha mesa, acrescentando pouco a pouco novas palavras à página em branco, sinto-me como se criasse um mundo novo, como se trouxesse à vida aquela outra pessoa que existe dentro de mim, da mesma forma como alguém poderia construir uma ponte ou uma abóbada, pedra por pedra. As pedras que usamos, nós os escritores, são as palavras. Quando as colhemos com as mãos - tentando intuir a maneira como cada uma se conecta às outras, contemplando-as às vezes de longe, às vezes quase chegando a acariciá-las com os dedos e a ponta da caneta, sopesando-as, virando-as de um lado e de outro, ano após ano, sempre com paciência e esperança -, criamos novos mundos.

Orhan Pamuk (A maleta do meu pai, tradução de Sergio Flaksman)