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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Pais e filhos


Os lugares por onde passavam não se podia dizer que fossem pitorescos. Campos e mais campos estendiam-se até o horizonte, ora elevando-se suavemente, ora abaixando-se de novo. Aqui e acolá viam-se pequenos bosques e depressões com uma vegetação escassa de arbustos, lembrando perfeitamente a sua representação nas antigas plantas do tempo de Catarina II. Riachos com as margens escavadas e pequenas represas gastas pelo tempo, assim como aldeias de cabanas baixas de telhados escuros e mal conservados; pequenos depósitos de debulhar o trigo, tortos e com as paredes feitas de varas trançadas; igrejas, ora de alvenaria, com o reboco gasto em alguns lugares, ora de madeira, com as cruzes inclinadas; e cemitérios devastados.  
(…)
Tudo em redor era de um verde dourado. Tudo se agitava ampla e suavemente, ondulando ao sopro de uma brisa quente. Tudo – árvores, arbustos e relva. Por toda parte vibrava interminavelmente o canto das aves que pairavam bem alto sobre os prados e saltitavam de moita em moita. Como manchas escuras no verde intenso dos campos semeados, passeavam as gralhas, que desapareciam nos campos de centeio já esbranquiçados. De quando em quando, surgiam-lhes as cabecinhas no ondulante oceano do trigal.  
(…) 
A manhã era esplêndida e fresca. Havia pequenas nuvens multicores aqui e acolá no azul claro do céu. O orvalho rebrilhava nas folhas das árvores e a erva rasteira verdejava cheia de viço e frescor. A terra úmida e preta parecia conservar ainda os vestígios da noite. No alto pairavam os cantos das aves. 
(…) 
A treva aveludada da noite encheu a janela, revelando um céu quase negro, os vultos farfalhantes das árvores e o cheiro fresco, livre e puro do ar. 
(…) 
O lampião iluminava fracamente a sala escura, perfumada e confortável. Através da cortina que se balançava levemente vinha a excitante frescura da noite, ouvia-se o seu misterioso murmúrio.

Ivan Turguêniev (tradução de Ivan Emilianovitch)

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