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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A literatura do impossível

Apaixonados pelo cinema, pela TV e pela internet, grande parte dos jovens escritores se dedica, hoje, a construir uma espécie de “novo realismo”. Imitam, assim, os grandes autores realistas do século 19, uma época em que este já era um projeto impossível. Pois hoje ele é mais impossível ainda. Hoje? Já em 1965, o escritor Elias Canetti, em um delicado ensaio de meia-dúzia de páginas, apontava o fracasso da opção realista.

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Lá se vai quase meio século! E, no entanto, sufocados pela hiper-realidade virtual, hipnotizados por uma realidade que se parece com uma prisão, os jovens escritores insistem em buscar o impossível.

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A ficção de nossos dias, portanto, se deseja ainda ser “realista”, não pode se limitar aos grandes painéis do contemporâneo, ou aos enredos de ação e objetividade. Precisa meter as mãos nesse grande fosso escuro, e em grande parte inviolável, no qual a realidade se triparte. Ou mais ainda: em que ela, hoje, cinqüenta anos depois do ensaio de Canneti, se fragmenta. A época dos retratistas terminou. Mesmo os mais avançados equipamentos digitais não podem dar conta do mundo em que estamos metidos.

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O fracasso do realismo procede de um impasse: nenhuma imagem fixa corresponde mais à realidade em que vivemos. Para dela se aproximar, somos obrigados a manipular destroços, fragmentos, precárias simulações. A realidade não cabe mais dentro de nossa idéia de realidade. Em conseqüência, é bem mais prudente esquecer a idéia de realidade e pensar em outra coisa. Pessoalmente, acho mais útil pensar na idéia de ficção. Ou dizendo ainda melhor: de ficções.

O século 21 exige, portanto, outra idéia de literatura. É reconfortante e belo reler os realistas do século 19, mas suas narrativas, nos dias de hoje, se assemelham aos contos de fadas. Continuamos a amá-los, eles continuam a ser apaixonantes — mas já não nos servem como espelhos, já não dão conta do mundo em que somos obrigados a viver. Podemos pensar, no máximo, em uma grande malha de realidades (ficções), que lutam por novas posições, que se combatem, que se misturam, e nessa grande (mas rica) confusão levam nosso século a andar.  
José Castello  

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