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sábado, 25 de fevereiro de 2012

A casa e a mala

Levou exatamente uma semana. Uma semana para descer todas as caixas, tirar todas as coisas de dentro delas, separar as que ficariam das que seriam doadas ou iriam para o lixo-reciclagem.

Uma semana limpando, arrumando, reagrupando, reorganizando. Foi como tirar a roupa, tomar banho e botar para lavar. As coisas que ficaram só ficaram porque realmente estão sendo usadas e continuarão sendo por um bom tempo. Tentamos reduzir ao máximo os espaços ocupados por elas para dar lugar ao vazio. Aqui ele é mais do que benvindo. O vazio não no sentido de oco, estéril. O vazio que significa possibilidade, abertura, pausa. O vazio que é o silêncio. O vazio que é contemplação. O vazio por onde a energia pode fluir com mais liberdade, com mais vida.

Percebi que usávamos muito a palavra "livrar" durante a arrumação. Livrar tem a ver com livre, com liberdade. Livrar caixas, prateleiras, baús, gavetas. Aproveitar ao máximo cada canto para deixar o espaço o mais aberto e livre de coisas possível. Dar valor àquelas que realmente importam. Saber dar o devido valor a elas. Reconhecê-las pelo nome, pela história de cada uma.

Sinto que a casa respira melhor. Nós respiramos melhor. De alívio, de leveza. O carnaval foi assim. Bom para por a casa e a vida em ordem e para a gente poder se dedicar ao que importa de verdade.

Assim como a nossa mala quando saímos em viagem é a menor e mais leve possível, queremos que a nossa casa seja leve e ganhe cada vez mais espaço não para ser ocupado, mas para ser livre.

Para quem mudou não só de casa como de cidade, de estado e de país nove vezes em três décadas, o que dá uma média de três anos em cada endereço, é natural ter só aquilo que vale a pena ter.

Em tempo: nos últimos três anos, esta foi a terceira ou quarta vez que demos, como dizem por aí, uma geral na casa. Percebi que cada vez que isso acontece, a vontade de querer (re)ter coisas diminui na mesma proporção que aumenta a falta de dó na hora de passá-las adiante. Ainda falta fazer uma caixa para mandar para os filhos de uma amiga (vai ser uma surpresa) e o pessoal do orfanato vir buscar as últimas doações.

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