Páginas

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Geografia sentimental

Às vezes, penso que ficar alegre ou triste é totalmente diferente quando se está em um determinado lugar e não em outro. Há lugares que tornam certos sentimentos mais ou menos intensos. Quando estou triste, penso em Roma ou Veneza. Quando estou contente, feliz, penso em Paris. Quando estou pensativa e introspectiva, penso no Japão. Se sonho acordada, penso em Praga.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Janelas do mundo

Ilustração de Matteo Pericoli (clique para aumentar)


I sometimes proudly declare I am a writer who wrote a historical novel, “My Name is Red,” set in a location constantly before my eyes. To the popular question inquisitive guests and visiting journalists ask — “Doesn’t this wonderful view distract you?” — my answer is no. But I know some part of me is always busy with some part of the landscape, following the movements of the seagulls, trees and shadows, spotting boats and checking to see that the world is always there, always interesting and always a challenge to write about: an assurance that a writer needs to continue to write and a reader needs to continue to read.
Orhan Pamuk 

Meu amor por janelas é antigo. Muito antes da internet, eu me imaginava andando pelo mundo e tirando fotos de quartos, janelas e estações de metrô. Sempre fui colecionadora de lugares e, por conseqüência, de personagens, de histórias. Hoje em dia, isso é tão comum que até perdeu um pouco da graça. Mas existem exceções. A série Windows on the World, publicada no The New York Times e ilustrada por Matteo Pericoli, é uma dessas preciosidades que a gente encontra sem querer e que, despretensiosamente, fazem do mundo um lugar ainda surpreendente, apesar desse bombardeio de imagens que sofremos a cada segundo e que torna tudo tão banal, fugaz, momentâneo.

São treze janelas, treze autores, treze depoimentos, treze desenhos, treze lugares diferentes pelo mundo. A minha preferida é Turkish Delight (com o escritor turco Orhan Pamuk), que abre a série e ilustra este post. Mas lembro que vale a pena caminhar até cada uma dessas janelas e imaginar-se ali, olhando cada paisagem.

Daniel Kehlmann (Berlim, Alemanha)
Andrea Levy (Londres, Inglaterra)
Ryu Murakami (Tóquio, Japão)
Chimamanda Ngozi Adichie (Lagos, Nigéria)
María Kodama e Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina)
Rana Dasgupta (Nova Déli, Índia)
Nadine Gordimer (Joanesburgo, África do Sul)
Alaa Al Aswany  (Cairo, Egito)
Richard Flanagan (Ilha de Bruny, Austrália)
Marina Endicott (Edmonton, Canadá)
Nuruddin Farah (Mogadishu, Somália)
Elmore Leonard (Detroit, EUA)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A casa e a mala

Levou exatamente uma semana. Uma semana para descer todas as caixas, tirar todas as coisas de dentro delas, separar as que ficariam das que seriam doadas ou iriam para o lixo-reciclagem.

Uma semana limpando, arrumando, reagrupando, reorganizando. Foi como tirar a roupa, tomar banho e botar para lavar. As coisas que ficaram só ficaram porque realmente estão sendo usadas e continuarão sendo por um bom tempo. Tentamos reduzir ao máximo os espaços ocupados por elas para dar lugar ao vazio. Aqui ele é mais do que benvindo. O vazio não no sentido de oco, estéril. O vazio que significa possibilidade, abertura, pausa. O vazio que é o silêncio. O vazio que é contemplação. O vazio por onde a energia pode fluir com mais liberdade, com mais vida.

Percebi que usávamos muito a palavra "livrar" durante a arrumação. Livrar tem a ver com livre, com liberdade. Livrar caixas, prateleiras, baús, gavetas. Aproveitar ao máximo cada canto para deixar o espaço o mais aberto e livre de coisas possível. Dar valor àquelas que realmente importam. Saber dar o devido valor a elas. Reconhecê-las pelo nome, pela história de cada uma.

Sinto que a casa respira melhor. Nós respiramos melhor. De alívio, de leveza. O carnaval foi assim. Bom para por a casa e a vida em ordem e para a gente poder se dedicar ao que importa de verdade.

Assim como a nossa mala quando saímos em viagem é a menor e mais leve possível, queremos que a nossa casa seja leve e ganhe cada vez mais espaço não para ser ocupado, mas para ser livre.

Para quem mudou não só de casa como de cidade, de estado e de país nove vezes em três décadas, o que dá uma média de três anos em cada endereço, é natural ter só aquilo que vale a pena ter.

Em tempo: nos últimos três anos, esta foi a terceira ou quarta vez que demos, como dizem por aí, uma geral na casa. Percebi que cada vez que isso acontece, a vontade de querer (re)ter coisas diminui na mesma proporção que aumenta a falta de dó na hora de passá-las adiante. Ainda falta fazer uma caixa para mandar para os filhos de uma amiga (vai ser uma surpresa) e o pessoal do orfanato vir buscar as últimas doações.

O escritor ilhado

En el momento en que un escritor deja de mirar a su alrededor, deja de preocuparse por el "estado" o el "futuro de la literatura" en su país o en su lengua -descubre que eso es lo que menos le importa y que además no es responsabilidad suya-, y se dedica a lo que le toca dedicarse, es decir, a escribir su obra como si no hubiera ninguna otra en el mundo, en ese momento comienza a sentirse aislado. En parte por su propia voluntad, en parte porque no le queda más remedio si quiere sacar adelante sus escritos. 
(...)

Porque sólo si trabaja en la falsa creencia de que su libro es el único libro existente en el mundo, logrará sacarlo adelante y completarlo. Si levanta la cabeza de la máquina o del ordenador -yo escribo aún a máquina-, si mira hacia el pasado o hacia el futuro y ve su trabajo reducido a un nombre más en una inacabable lista; o si mira hacia el presente y se distrae preguntándose cómo les va a sus colegas, qué estarán haciendo y qué han conseguido y cuánta originalidad o profundidad hay en ellos; o si piensa en sus predecesores y no digamos si se deja aplastar por cuanto de maravilloso se ha escrito antes y seguramente se escribirá después de su vacilante paso por la tierra, entonces está perdido. Por eso el escritor precisa aislarse, mientras escribe.     
Javier Marías
Fonte: El País

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Oceano

Entre um livro e um filme, fico com o livro. Se for de poesia e de um autor do século XIX, melhor ainda. Por mais elaborada e bem feita que seja uma única cena, não supera a imaginação e as infinitas sensações que um verso é capaz de despertar. Ler um poema é como flutuar no oceano, mas sem saber que é um oceano, pois é como estar em vários mundos ao mesmo tempo, e esses mundos não têm um nome ainda, até que alguém que tenha chegado até eles ouça sussurros e tente traduzi-los em palavras.

O novo chique

O novo chique é ser inteligente e (bem) pago para escrever um livro em Berlim ou Hanói.

O início

Quando termino de escrever um livro sofro uma espécie de morte. (...) Demora para a vida, com todo o seu esplendor, ressurgir diante de meus olhos. (...) É um vazio imenso, só comparável ao que sinto quando começo a escrever outro. Essa experiência é a mais solitária de todas, porque só você está lá, diante da página em branco, e só você pode preenchê-la.
Ernest Hemingway

Começar um livro novo é se defrontar com o deserto. (...) É o encontro do autor com a alma, não com o corpo do livro. O corpo vem depois, nas páginas seguintes.
Marguerite Duras

O escritor se senta diante da página em branco, pronto para escrever, disposto a ordenar em frases e parágrafos os personagens e situações que surgem em sua mente, para minutos depois se levantar, inquieto com o vendaval de idéias e informações. Um turbilhão de vozes e imagens que o fazem andar pela casa, esbarrar em cadeiras, arrumar envelopes, abrir e fechar livros, para em seguida voltar ansioso à mesa e à página que o espera. Ritual que se repete incessantemente durante o dia, até as primeiras palavras assentarem enfim no papel.
Sobre Ítalo Calvino

A cada livro que escrevo cresce em mim a certeza de que é justamente essa tortura, de não saber o que virá adiante, nas próximas páginas, ou até mesmo nas próximas linhas, que mantém a vitalidade e o frescor da escrita. Sou eu que escrevo, mas, apesar disso, sou eu que parto em busca da realidade inventada por mim mesmo, e não ao contrário. Sempre volto às primeiras páginas quando fico sem inspiração, ou quando começo a me repetir. É a realidade que criamos, e pensamos que dominamos, que, na verdade, nos domina.
Gustave Flaubert

Quando passo da primeira página, tenho a certeza de que não sobreviverei às outras, porque sei de antemão o trabalho exaustivo que será, diariamente, tirar água de pedra, tornar concreto e palpável o que não passa da ilusão mais pura. Mas, ainda assim, persistirei e levarei a cada página os sustos e riscos da primeira, vou chorar e rir a cada descoberta, e cada nascimento e morte nesse livro será uma parte de mim que vive e morre também, como se eu nada soubesse de antemão sobre a história e a vida daquelas pessoas, como se cada momento fosse desconhecido e novo, e exigisse de mim também o desconhecimento e a novidade.
Anônimo
Fonte: Claudia Lage (Jornal Rascunho)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os livros de 2011

Eu nunca fui muito de fazer listas, mas em 2011 comecei a anotar todos os livros que li, aqueles que comprei ou peguei emprestado da biblioteca ao longo do ano.

Livros que li (de junho a dezembro):
. O duplo (Fiodor Dostoiévski/34)
. Pais e filhos (Ivan Turguêniev/Abril)
. Foi apenas um sonho (Richard Yates/Alfaguara)
. A prova  (Agota Kristof/Rocco)
. A terceira mentira  (Agota Kristof/Rocco)
. Um caderno e tanto (Agota Kristof/Rocco)
. Extinção (Thomas Bernhard/Companhia das Letras)
. Reflexo num olho dourado (Carson McCullers/José Olympio)
. O som e a fúria (William Faulkner/Cosacnaify)
. O vermelho e o negro (Stendhal/Globo)
. A zona do desconforto (Jonathan Franzen/Companhia das Letras)
. Sinuca embaixo d'água (Carol Bensimon/Companhia das Letras)
. Órfãos do Eldorado (Milton Hatoum/Companhia das Letras)
. Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60 (José Vicente de Souza Aguiar/Valer)
. Três contos (Gustave Flaubert/Francisco Alves)
. A morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstói/34)
. A metamorfose (Franz Kafka/Brasiliense)
. Meu Michel (Amos Oz/Companhia das Letras)
. Passageiro do fim do dia (Rubens Figueiredo/Companhia das Letras)
. Aberração (Bernardo Carvalho/Companhia das Letras)

Livros que comprei (na Festa do livro da USP):
. O vermelho e o negro (Stendhal/Cosacnaify)
. Kháji-Murat (Liev Tolstói/Cosacnaify)
. Contos de Sebastopol (Liev Tolstói/Hedra)
. Pais e filhos (Ivan Turguêniev/Cosacnaify)
. Lady Macbeth do distrito de Mitzensk (Nikolai Leskov/34)
. A morte de Ivan Ilitch (Liev Tostói/34)
. Memórias do subsolo (Fiódor Dostoiévski/34)
. O capote e outras histórias (Nikolai Gógol/34)
. A dama do cachorrinho (Anton Tchekhov/34)
. A sonata a Kreutzer (Liev Tolstói/34)
. Tolstói ou Dostoiévski (Georg Steiner/Perspectiva)

Outros livros que comprei:
. Borges oral & sete noites (Jorge Luis Borges/Companhia das Letras)
. História da eternidade (Jorge Luis Borges/Companhia das Letras)
. Atlas (Jorge Luis Borges/Companhia das Letras)
. Os últimos dias (Liev Tolstói/Penguin-Companhia)
. Os ensaios (Montaigne/Penguin-Companhia)
. Malá Strana: vestígios de Praga (Jan Neruda/Record)
. 1001 livros (Vários/Sextante)
. 501 escritores (Vários/Sextante)
. A prova (Agota Kristof/Rocco)
. A terceira mentira (Agota Kristof/Rocco)
. Um caderno e tanto (Agota Kristof/Rocco)
. Olhar escutar ler (Claude Lévi-Strauss/Companhia das Letras)
. Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60 (José Vicente de Souza Aguiar/Valer)
. A ilusão do fausto: Manaus - 1890-1920 (Edinea Mascarenhas Dias/Valer)
. A short walk in the Hindu Kush (Eric Newby/Lonely Planet)
. Mani: travels in the Southern Peloponnese (Patrick Leigh Fermor/New York Review Books)
. Só garotos (Patti Smith/Companhia das Letras)
. Anna Kariênina (Liev Tolstói/Cosacnaify)

Um livro que comecei e parei (por falta de tempo hábil, já que era da biblioteca):
. Moby Dick (Herman Melville/Cosacnaify)

Um livro que comecei e ainda não terminei:
. Anna Kariênina (Liev Tolstói/Cosacnaify)

Uma autora que nunca pensei em ler, mas que me fez mudar de idéia:
. Jane Austen

Tirando a poeira...
... de todos os meus livros de poesia (da coleção Dover Thrift Editions), especialmente John Keats e Emily Dickinson.

2011 foi o ano...
... em que retornei às minhas origens e finalmente tive a coragem de tirar da gaveta e assumir um projeto acalentado há décadas.

2012 é o ano...
... do meu retorno à poesia e da continuidade de uma longa caminhada cujo passo decisivo dei em junho de 2011.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Nas montanhas

Às vezes eu me vejo morando em um lugar de onde vejo montanhas. De manhã, faço caminhadas por uma estradinha de terra e cascalho que me leva até um lago. De lá, vejo o sol se levantar por detrás de uma imensa rocha.

Onde quer que eu esteja, o verde me abraça. O jardim entra pela janela do meu quarto de trabalho. Como é bom receber a visita de um jardim.

De vez em quando, o velho carro me leva até as montanhas. Passeamos por estradas ladeadas de pinheiros. Há muitas curvas, é preciso ter cuidado.

Ouvi dizer que aparecem ursos em alguns lugares escondidos nas montanhas. Eu nunca vi, mas parece que eles gostam de andar por aí no verão. Vão atrás de comida e, quando percebem, dão de cara com um animal que anda sobre duas pernas e quase não tem pelos. Deve ser muito estranho encontrar alguém que não seja como eles, peludos e enormes.

Eu já morei em um lugar assim, mas não sabia que era tão bom.

O simples não é tão simples

Por que o simples, em vez de ser mais acessível, é sempre mais caro?

Porque o simples, ao contrário do complicado, é raro. Simplicidade pode ser confundida com falta de graça, de cor, de brilho. Há quem odeie o simples por achá-lo sem classe, sem gosto, sem valor.

Eu adoro o simples. Porque é muito mais difícil dizer algo com aparentemente tão pouco. Porque há poucos olhos que enxergam além da quantidade. Porque o simples é sinônimo de qualidade. É muito mais difícil encontrar a beleza em um rosto sem maquiagem, em um corpo sem roupas, malhação ou silicone. Porque o simples é o mais difícil de reconhecer e aceitar. Porque o simples no desafia a enfrentar nossa própria incapacidade de enxergá-lo e apreciá-lo.

Menos é mais. Sempre. Ainda que mais difícil que o mais.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Brevidades

Hoje fui ao supermercado e vi que já montaram os suportes para pendurar ovos de Páscoa. Páscoa? Mas nem entramos na quaresma. Quaresma? Incrível como tudo hoje em dia é banal: natal, amor, sexo, violência, morte. Até o carnaval. Se todo ano tem, que graça tem?

* * *

Aqui em casa estamos viciados em Plants versus Zombies. Os gatos andam estranhando nosso comportamento. Humanos...

* * *

Acabo de saber que a Cosacnaify está para lançar a edição de capa dura de Guerra e paz por 119 reais. Isso significa que na Festa do livro da USP ele vai custar 60 reais. Como a pilha de livros que comprei no ano passado vai durar um bom tempo ainda, posso esperar até o fim do ano. Falando nisso, preciso retomar o Anna Kariênina. Atividades paralelas e uma nova rotina me afastaram (temporariamente) do livro. Espero que o autor não se ofenda.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A xícara e o tempo

Passei a noite de sexta e o sábado praticamente todo esvaziando, limpando e arrumando as prateleiras da minha estante de livros e a bancada que faz as vezes de mesa de escritório. A estante foi reorganizada, ganhou um novo lugar e a bancada diminuiu em um terço, o que significa que ganhamos espaço no escritório. E que espaço! Agora dá até para colocar uma bergère e uma luminária ao lado da estante, junto a uma parede de frente para a janela.

Hoje fui até uma dessas lojas que vendem coisas para casa atrás de um gaveteiro para guardar e organizar papéis e material de escritório. Quero deixar a mesa o mais livre possível. Não encontrei o gaveteiro, mas voltei com uma xícara de chá e um pires e sei que eles vão me acompanhar pelo resto da vida. Não costumo sair comprando o que vejo pela frente - aliás, fazia um bom tempo que não entrava na loja. Mas hoje, quando vi a xícara e o pires, fui imediatamente transportada para uma outra época.

Posso dizer, com orgulho, que a minha passagem para um outro século foi, literalmente, uma bela supresa. E custou menos de vinte e cinco reais.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Minimalismo?

Menos é mais. Nunca uma frase foi tão atual. Em todos os sentidos.

A minha sala não tem sofá, não tem estante, não tem mesinha. Só tatame, algumas almofadas feitas em casa e com tecido e enchimento reaproveitados, uma TV. Estou me dando por mais do que satisfeita assim.

Há uns três anos, doei dois terços da minha "biblioteca" e continuo achando que tenho muita coisa. Aquela história do monge que disse que um homem só é feliz se puder carregar o que tem é a mais pura verdade. Não ter é mais do que uma atitude, uma postura, uma escolha. É uma liber(t)ação.

Para quem cresceu lendo UM jornal diário e se sentia muito bem informada, obrigada, a internet é só um acessório. Nada mais do que isso. Felizmente, eu não dependo dela nem ela de mim.

Também não estou nem aí para a moda. Se o amarelo, o verde, o laranja ou o que quer que seja é in ou out, não é problema meu. Faz um tempo que risquei a palavra "tendência" não só do meu dicionário, mas da minha vida. E me sinto muito bem assim, é isso que importa. Mesmo que eu me sinta, às vezes, uma alienígena.

Gosto de coisas velhas, mas não sou escrava do retrô. Encontrei outras formas de matar a minha sede de passado. Não estou preocupada em mostrar ou provar aos outros que tenho ou não tenho bom gosto. Não é entupindo a minha casa e a minha vida de coisas que vou expressar minha individualidade.

Não tenho carro. Não por ser ecochata. Não tenho carro porque não preciso dele. Prefiro andar de metrô, bicicleta, trem, ônibus, bonde, carro de boi. Além de ser mais barato, não preciso me preocupar com esse hospício que é o trânsito.

Parece que alguém decidiu dar as costas para o mundo. Ok, para o mundo é meio exagero, concordo. Talvez para este nosso século (que eu não sei se é o XXI ou o XXXI).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O século XIX: Georg Friedrich Kersting (1785-1847)

 O leitor elegante (1812)

 Homem lendo sob um abajur

 Homem em sua mesa (1811)

 Caspar David Friedrich em seu estúdio (1811)

 Casal à janela (1815)

Jovem costurando sob um abajur (1823)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Bright Star



Uma das coisas mais lindas que eu já (ou)vi.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sentido

Passei a minha vida inteira procurando um sentido de estar no mundo, mas temo que ele não exista. Esta descoberta é, de longe, a mais difícil de todas, muito mais do que a infância e a adolescência juntas. Deve ser por isso que, quanto mais vivo, menos entendo o mundo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Janelas

 Caspar David Friedrich

 Pieter de Hooch

Johannes Vermeer


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fé e trabalho

Escrever é um ato de fé. Fé em si mesmo, fé na idéia, fé no leitor. Sem fé, não é possível escrever a primeira palavra. E se o primeiro passo for dado, o trabalho fará o resto.

Pais e filhos


Os lugares por onde passavam não se podia dizer que fossem pitorescos. Campos e mais campos estendiam-se até o horizonte, ora elevando-se suavemente, ora abaixando-se de novo. Aqui e acolá viam-se pequenos bosques e depressões com uma vegetação escassa de arbustos, lembrando perfeitamente a sua representação nas antigas plantas do tempo de Catarina II. Riachos com as margens escavadas e pequenas represas gastas pelo tempo, assim como aldeias de cabanas baixas de telhados escuros e mal conservados; pequenos depósitos de debulhar o trigo, tortos e com as paredes feitas de varas trançadas; igrejas, ora de alvenaria, com o reboco gasto em alguns lugares, ora de madeira, com as cruzes inclinadas; e cemitérios devastados.  
(…)
Tudo em redor era de um verde dourado. Tudo se agitava ampla e suavemente, ondulando ao sopro de uma brisa quente. Tudo – árvores, arbustos e relva. Por toda parte vibrava interminavelmente o canto das aves que pairavam bem alto sobre os prados e saltitavam de moita em moita. Como manchas escuras no verde intenso dos campos semeados, passeavam as gralhas, que desapareciam nos campos de centeio já esbranquiçados. De quando em quando, surgiam-lhes as cabecinhas no ondulante oceano do trigal.  
(…) 
A manhã era esplêndida e fresca. Havia pequenas nuvens multicores aqui e acolá no azul claro do céu. O orvalho rebrilhava nas folhas das árvores e a erva rasteira verdejava cheia de viço e frescor. A terra úmida e preta parecia conservar ainda os vestígios da noite. No alto pairavam os cantos das aves. 
(…) 
A treva aveludada da noite encheu a janela, revelando um céu quase negro, os vultos farfalhantes das árvores e o cheiro fresco, livre e puro do ar. 
(…) 
O lampião iluminava fracamente a sala escura, perfumada e confortável. Através da cortina que se balançava levemente vinha a excitante frescura da noite, ouvia-se o seu misterioso murmúrio.

Ivan Turguêniev (tradução de Ivan Emilianovitch)

Turguêniev por Flaubert

As descrições de Turguêniev pensam.  
Gustave Flaubert (citado por Rubens Figueiredo)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Criatividade

Creativity is paradoxical. To create, a person must have knowledge but forget the knowledge, must see unexpected connections in things but not have a mental disorder, must work hard but spend time doing nothing as information incubates, must create many ideas yet most of them are useless, must look at the same thing as everyone else, yet see something different, must desire success but embrace failure, must be persistent but not stubborn, and must listen to experts but know how to disregard them.  
Michael Michalko  
Fonte: Advice to Writers

A literatura do impossível

Apaixonados pelo cinema, pela TV e pela internet, grande parte dos jovens escritores se dedica, hoje, a construir uma espécie de “novo realismo”. Imitam, assim, os grandes autores realistas do século 19, uma época em que este já era um projeto impossível. Pois hoje ele é mais impossível ainda. Hoje? Já em 1965, o escritor Elias Canetti, em um delicado ensaio de meia-dúzia de páginas, apontava o fracasso da opção realista.

(...)

Lá se vai quase meio século! E, no entanto, sufocados pela hiper-realidade virtual, hipnotizados por uma realidade que se parece com uma prisão, os jovens escritores insistem em buscar o impossível.

(...)

A ficção de nossos dias, portanto, se deseja ainda ser “realista”, não pode se limitar aos grandes painéis do contemporâneo, ou aos enredos de ação e objetividade. Precisa meter as mãos nesse grande fosso escuro, e em grande parte inviolável, no qual a realidade se triparte. Ou mais ainda: em que ela, hoje, cinqüenta anos depois do ensaio de Canneti, se fragmenta. A época dos retratistas terminou. Mesmo os mais avançados equipamentos digitais não podem dar conta do mundo em que estamos metidos.

(...)

O fracasso do realismo procede de um impasse: nenhuma imagem fixa corresponde mais à realidade em que vivemos. Para dela se aproximar, somos obrigados a manipular destroços, fragmentos, precárias simulações. A realidade não cabe mais dentro de nossa idéia de realidade. Em conseqüência, é bem mais prudente esquecer a idéia de realidade e pensar em outra coisa. Pessoalmente, acho mais útil pensar na idéia de ficção. Ou dizendo ainda melhor: de ficções.

O século 21 exige, portanto, outra idéia de literatura. É reconfortante e belo reler os realistas do século 19, mas suas narrativas, nos dias de hoje, se assemelham aos contos de fadas. Continuamos a amá-los, eles continuam a ser apaixonantes — mas já não nos servem como espelhos, já não dão conta do mundo em que somos obrigados a viver. Podemos pensar, no máximo, em uma grande malha de realidades (ficções), que lutam por novas posições, que se combatem, que se misturam, e nessa grande (mas rica) confusão levam nosso século a andar.  
José Castello  

A luta

A literatura se parece muito à luta dos samurais, mas um samurai não luta contra o outro samurai: luta contra um monstro. Além disso, ele geralmente sabe que será derrotado. Ter coragem, sabendo previamente que você será derrotado, e ir à luta: isso é a literatura.
Roberto Bolaño (citado por Enrique Vila-Matas)  
Fonte: Cosacnaify

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O silêncio

(...) O não escrever é uma forma de vida, o silêncio pode não ser uma renúncia, mas uma conquista ou afirmação, onde o não existente impõe sua existência, carregada de um significado misterioso e insondável, como uma pausa, o silêncio numa partitura musical, que pode resultar mais emocionante que uma nota.

Antonio Tabucchi (tradução de Daniel Benevides)
Fonte: Cosacnaify

Found in translation

I have always regarded translation as the best school a novelist can have. Let's agree that translators are the perfect readers: nobody reads as closely, as accurately, as sympathetically, with as much solidarity and generosity, as a translator. If this is true, then there is no better way to understand how a work of fiction works than through translation. As for my own translations, I have learned enormously from every one of them, even from the bad books: especially from the bad books, because translating them you notice firsthand the shortcuts, the lies, the cheating.
Juan Gabriel Vásquez
Fonte: The Guardian

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Wislawa Szymborska

Cat in an Empty Apartment

Die—you can’t do that to a cat.
Since what can a cat do
in an empty apartment?
Climb the walls?
Rub up against the furniture?
Nothing seems different here
but nothing is the same.
Nothing’s been moved
but there’s more space.
And at nighttime no lamps are lit.

Footsteps on the staircase,
but they’re new ones.
The hand that puts fish on the saucer
has changed, too.

Something doesn’t start
at its usual time.
Something doesn’t happen
as it should.
Someone was always, always here,
then suddenly disappeared
and stubbornly stays disappeared.

Every closet’s been examined.
Every shelf has been explored.
Excavations under the carpet turned up nothing.
A commandment was even broken:
papers scattered everywhere.
What remains to be done.
Just sleep and wait.

Just wait till he turns up,
just let him show his face.
Will he ever get a lesson
on what not to do to a cat.
Sidle toward him
as if unwilling
and ever so slow
on visibly offended paws,
and no leaps or squeals at least to start.


Tradução do polonês para o inglês de Stanisław Barańczak e Clare Cavanagh

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O século XIX: John Keats

Endymion (trecho)

O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.


Endymion (trecho)

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o'er-darkened ways:
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
'Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven's brink.



KEATS, John. "From Endymion" / "Do Endymion". In: CAMPOS,
Augusto de. Byron e Keats: Entreversos. Traduções de Augusto de Campos.
Campinas: Editora Unicamp, 2009.