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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mulher de azul



Mal posso acreditar. Ela está aqui. Bem aqui.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pierre Bonnard

Nu dans le bain au petit chien, 1941-1946
Carnegie Museum of Art, Pittsburgh 
© Artists Rights Society (ARS), New York/ADAGP, Paris. Photo Credit: Richard Stoner


Certo dia, em 1893, Pierre Bonnard ficou de olho numa moça que desembarcava de um bonde parisiense e, atraído pela sua fragilidade e pela sua beleza pálida, resolveu segui-la até o lugar em que trabalhava, uma empresa de pompes fúnebres, onde ela passava o dia todo cozendo pérolas em coroas para funerais. Com isso, desde o início, a morte introduziu a sua fita preta na trama de suas vidas. Bonnard tratou logo de se apresentar — suponho que, na Belle Époque, essas coisas fossem feitas com naturalidade e aplomb —; em pouco tempo, a moça tinha deixado o emprego e tudo o mais na vida para ir morar com ele. Disse-lhe que se chamava Marthe de Méligny, e que tinha dezesseis anos. Na verdade, ele só foi descobrir isso mais de trinta anos depois, quando afinal decidiu se casar com ela: o seu nome era Maria Boursin, e, quando se conheceram, ela não tinha dezesseis anos, mas sim uns vinte e poucos, como o próprio Bonnard. Ficaram juntos nos bons e nos maus momentos, ou, melhor dizendo, nos maus momentos e nos piores ainda, até a morte de Marthe, cerca de cinqüenta anos mais tarde. Numa biografia de Bonnard, Thadée Natanson, um dos primeiros mecenas do pintor, evoca, com rápidos toques impressionistas, a figura um tanto etérea de Marthe, referindo-se ao seu ar selvagem de pássaro, movendo-se na ponta dos pés. Ela era enigmática, ciumenta, incrivelmente possessiva; tinha mania de perseguição e era uma grande e dedicada hipocondríaca.
Em 1927, Bonnard comprou uma casa, Le Bosquet, na modesta cidadezinha de Le Cannet, na Côte d’Azur, onde foi morar com Marthe, num isolamento atormentado, só interrompido esporadicamente, até que ela morreu, quinze anos mais tarde. Em Le Bosquet, ela adquiriu o hábito de passar horas e horas no banho, e foi no banho que Bonnard a pintou inúmeras vezes, continuando com a série mesmo depois da sua morte. As Baignoires são o apogeu triunfante do trabalho de toda a sua vida. Na tela Nu dans le bain au petit chien, iniciada em 1941, um ano antes da morte de Marthe, e só concluída em 1946, ela está ali, em tons de rosa, lilás e ouro, uma deusa do mundo flutuante, esmaecida, atemporal, imprecisamente morta ou viva, e, ao seu lado, no chão de ladrilhos, o cachorrinho marrom, seu companheiro, um bassê, acho eu, atento e aninhado em seu colchão ou talvez num retângulo de sol entrando por alguma janela que não vemos. O pequeno cômodo, que é o seu refúgio, vibra ao seu redor, pulsando em suas cores. O seu pé esquerdo, esticado na extremidade de uma perna incrivelmente longa, parece empurrar a banheira, entortando-a do lado esquerdo e, mais abaixo, desse mesmo lado, no mesmo campo de força, o chão também está fora de alinhamento, parecendo prestes a escorrer pelo canto, não como um chão, mas como uma poça movente de água mosqueada. Nessa cena, tudo se move; tudo se move na imobilidade, num silêncio aquoso. Pode-se ouvir uma gota caindo, uma ondulação da água, um suspiro tremulante. Uma mancha avermelhada na água, junto ao ombro direito da mulher que se banha, bem pode ser ferrugem, ou até mesmo sangue já seco. A sua mão direita repousa sobre a coxa, como se, ao virá-la, houvesse estancado em meio ao gesto, e lembro das mãos de Anna em cima da mesa, naquele primeiro dia em que fomos ao consultório de Mr. Todd; as suas mãos desamparadas, com as palmas voltadas para cima, como se pedindo alguma coisa a alguém à sua frente, mas um alguém que não estava ali.

John Banville (O mar, tradução de Maria Helena Rouanet)


Nu dans la baignoire, 1925
Tate Gallery, London
© ADAGP, Paris and DACS, London 2002



Baignoire (Le Bain), 1925
Tate Gallery, London
© ADAGP, Paris and DACS, London 2002



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Groove

I struggled through the routine a few more times, and just as I was thinking about giving up, Ms. Vee delivered a much appreciated pep talk: “If you’re saying, ‘Oh, I messed up, I can’t do it’ — don’t. Don’t be goal-oriented. It’s a process. Have fun with it. Allow yourself to make mistakes, and forgive yourself. It’s the only way to move on.”

Depoimento da jornalista Julia Lawlor sobre uma aula de hip-hop (mais aqui

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Realismo poético

Aos 12 anos Wenders já queria ser pintor e manifestava a obsessão por viagens. Pedalou 100 quilômetros até Amsterdã para ver Rembrandt, Vermeer e Van Gogh nos museus. "Quando somos jovens temos uma capacidade maior de aprender sobre sombras, luz e enquadramento". E de todos, Caspar David Friedrich (1174-1840), com suas paisagens tragicamente românticas, era o seu favorito. "Se eu tivesse nascido há 150 anos teria sido um viajante que registraria suas impressões em aquarelas". Inspirado em Friedrich, Wenders gosta de dizer que é um "romântico sem esperança". Inspirado em Edward Hopper (1882-1967), Wenders conclama, com assombro, solidariedade à desolação.

Renata de Almeida e Leon Cakoff

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os dias

Ver, ouvir, sentir. Desde março, faço coisas que nunca imaginei fazer e, mais ainda, que continuaria fazendo. Quando era mais nova, eu dirigia toda a minha atenção e todos os meus esforços para o começo e  para o fim, mas agora sinto que o que importa, para mim, é o meio.

Acabei fazendo uma pausa aqui. Nada planejado, mas aconteceu. Outras coisas me absorveram ou eu as tenho absorvido, observado. E tenho feito isso em silêncio. Estou preferindo me guardar, deixar que meus pensamentos, sentimentos e o que mais vier assumam o controle, me envolvam, façam nascer, crescer algo dentro de mim. Estou me deixando levar, simplesmente.

Nos últimos cento e vinte e tantos dias:

Vi a São Paulo Companhia de Dança no Sesc Vila Mariana, Giselle no Teatro Municipal, Kaminari e Neongyoku (duas peças de kyogen, teatro clássico cômico japonês), as exposições Modigliani: imagens de uma vida e Caravaggio e seus seguidores no Masp.

Assisti ao concerto de encerramento do Festival de Música Antiga da Escola de Música Estadual (Emesp) em um domingo ensolarado na Pinacoteca, aos filmes Fausto, Para Roma, com amor, Na EstradaAqui é o meu lugar, Hanami: cerejeiras em flor, Kafka.

Fui parar em uma roda de dabke em uma festa e me diverti muito, aprendi algumas técnicas de dança folclórica árabe com uma professora ótima, fiz aulas de pilates de solo, dancei meu primeiro adágio, comprei, enfim, meu "uniforme" de balé, descobri que a melhor escola de balé do mundo é a que me faz descobrir que a postura e a consciência corporal vêm antes da técnica, força e leveza e, principalmente, onde me sinto à vontade.

Passei um fim de semana não planejado em um dos meus lugares preferidos no mundo, na Serra da Mantiqueira, onde almoçamos em uma fazenda, passeamos por pomares e andamos a cavalo por estradinhas de terra.

Aprendi a fazer feijão tropeiro e tive a certeza, mais uma vez, de que a melhor comida do mundo é da roça.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Da leveza


Há mais de um mês, quando vi esta foto no site So Yours for the Taking, imediatamente fui transportada à minha infância no Méier, bairro do subúrbio carioca. Àqueles que me conhecem e sabem que sou descendente de orientais: não, eu não fiquei com saudades da primeira turma ou da primeira professora de balé, até porque foi há quase três meses que tive a primeira experiência como aluna não só de balé como de dança.

Olhando a foto, me dei conta de que a tal "leveza" de que tanto se fala quando se trata de dança não é, simplesmente, a leveza física. É claro que o preparo físico e a técnica ajudam, mas não é só isso. Falo da leveza enquanto estado de espírito. E devo confessar que, há mais ou menos um mês, eu comecei a sentir (e muito) a falta que essa leveza faz.

Isso fez com que eu ficasse desanimada. Não queria ler, muito menos escrever. Eu estava me sentindo pesada. Até o balé, que era para ser uma fonte de alegria e prazer (apesar das dificuldades "técnicas"), estava me cansando.

Comecei a faltar às aulas, coisa que nunca tinha feito em dois meses. Primeiro foi uma gripe, depois uma dor na perna esquerda, depois o pessoal do gás que apareceu sem avisar.

Eu sabia que não era tristeza, não era estresse. Era insatisfação. Eu estava indo às aulas de balé duas vezes por semana e sentia que não estava mais valendo a pena. Como assim, "valer a pena"? Por acaso, fazer aulas de dança é algo penoso, mas necessário? Fiz a mim mesma estas perguntas e cheguei a uma resposta: decididamente, não.

Descobri que o que estava me cansando era a pressa. Pressa que as pessoas (umas mais, outras menos) têm de ensinar, de aprender, de atingir metas, resultados (de preferência, bem visíveis). Quando decidi fazer balé, algo que nunca tinha me passado pela cabeça antes do início deste ano, era justamente para aprender que aprender algo demanda tempo. E, sobretudo, paciência, algo que não faz parte da minha natureza agitada e irrequieta.

Eu sou do tipo que aprende, literalmente, passo a passo. Posso demorar, mas quero aprender e (para) fazer direito. Preciso conquistar, desenvolver, ter uma base sólida para ganhar autoconfiança. Não sou da turma do "mais ou menos". Procuro saber o que, por que e para que estou fazendo, seja uma conjugação verbal em grego arcaico ou um arroz com feijão. E é esse processo de aprendizado, de contextualização, de reflexão, de diálogo que me dá prazer. Tenho paixão e curiosidade de aprender, seja o que for, seja quanto tempo for preciso. E se essa paixão para de ser alimentada, se essa curiosidade morre, é hora de repensar, refletir e agir.

Eu pensei, repensei, refleti e agi. Troquei de escola de balé, terminei, enfim, de ler Anna Kariênina (falo dessa experiência homérica mais tarde) e estou voltando a escrever. O tempo (e Tchekhov) tem me ajudado. Os dias têm sido ensolarados, amenos e agradáveis. Depois de semanas literalmente cinzentas e frias, estou, enfim, relaxando. No fundo, eu quero ser como essas meninas, ou melhor, continuar sendo, pelo menos em parte e por dentro, aquela menina que fui um dia.

Até breve!

Foto: Standing on thin air, de Lincoln~

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Paris, Tóquio

Um armeiro constrói um imenso Buda deitado em uma ilha, certo de que nenhuma alma errará solitária e sem encontrar repouso após a morte. Um adolescente sai à procura do irmão mais velho, desaparecido sem deixar rastros, e se aventura por uma Tóquio moderna e, ao mesmo tempo, violenta. Um homem "ouve" uma estranha relação entre ele, os sons de uma megalópole e duas mulheres. Um casal recém-separado de cineastas decide fazer um último filme e troca, pelo correio, imagens de suas novas vidas cotidianas como se fossem cartas de amor - ela, de Tóquio, ele, de Paris.

O que esses personagens têm em comum é o fato de terem sido criados pelo escritor, poeta, cineasta e músico japonês Hitonari Tsuji. Praticamente desconhecido no Brasil, ele é um autor premiado no Japão e na França, onde mora há quase dez anos. Mais precisamente, em Paris, cidade que o inspirou a rodar seu mais recente filme, Paris Tokyo Paysage.

O trabalho de Tsuji e de outros artistas - famosos ou anônimos - é uma prova de que a conexão Tóquio-Paris-Tóquio vai muito além dos aviões que despejam, diariamente, turistas afoitos por compras em lojas de grife, experiências gastronômicas e passeios inesquecíveis cuidadosamente registrados por câmeras de última geração. Muito antes de Kenzo, Miyake, Yamamoto e Kawakubo fazerem sucesso na capital da moda e revolucionarem o conceito do vestir, os impressionistas, na segunda metade do século XIX, já flertavam com a arte das estampas japonesas ou ukiyoe (浮世絵) e com o que chamavam de "mundo flutuante" (浮く= uku = flutuar; 世 = yo = mundo; 絵 = e = desenho): mulheres de quimono, casas de chá, pontes e paisagens retratados por uma perspectiva em que as figuras pareciam "saltar" da superfície do papel, antecipando a estética do cartum e do mangá.

A relação entre personagens e lugares é o que norteia o trabalho de Tsuji e de outros diretores, como Wim Wenders. Wenders também se embrenhou pelas ruas de Tóquio em busca de imagens do cineasta japonês Yasujiro Ozu e o resultado foi o filme Tokyo ga: um registro, um testemunho pessoal das transformações radicais da sociedade japonesa em meio ao ritmo caótico da cidade. Não por acaso, ele tem no currículo outros títulos que são, literalmente, nomes de lugares: Paris, Texas; Der Himmel über Berlin (O céu sobre Berlim, título original de Asas do desejo) e O céu de Lisboa, cujo personagem principal, para fechar o ciclo de coincidências, é, justamente, um engenheiro de som que vai a Lisboa e, em meio ao mistério do desaparecimento de um amigo, descobre-se apaixonado pela sonoridade do lugar.


Paris 

 Tóquio

 Tóquio

Paris

O que une personagens e pessoas a lugares? Talvez o resgate de uma memória, de um passado, de uma origem. Ou a busca de uma identidade, de uma relação, e a descoberta de que não há uma, mas muitas delas.

Fotos: Cenas de Paris Tokyo Paysage

terça-feira, 27 de março de 2012

O efeito Pina




Eu sempre acreditei que o que faz um artista ser grande é a capacidade, a ousadia, a coragem de fazer alguém pensar, querer sair nem que seja por um instante de seu lugar, de si mesmo e se aventurar. Um grande artista é aquele que, à sua maneira, convida alguém a se unir a ele em sua busca, mas essa busca, na realidade, é de quem se deixa levar, de quem se deixa conduzir.

Em algum momento de Pina, um bailarino da companhia conta que a coreógrafa, uma vez, disse: "é preciso procurar, mesmo sem saber o quê". Essa frase, para mim, é o que de melhor pude aprender com o documentário.

Em outro momento, vendo aqueles corpos em movimento, expressando visões, idéias, sentimentos, emoções, enfim, o humano, me lembrei do que o professor de balé disse no começo das aulas: dançar é como desenhar no espaço. Logo depois, outro bailarino diz: "Pina era uma pintora". E aí eu pensei: o espaço é uma grande tela, onde desenhamos com o corpo linhas, traços, e a força, a ênfase, a carga que damos aos movimentos é como as tintas e as cores, os efeitos de sombra e luz. A união de todos os elementos - bailarinos, coreografia, música, movimentos, cenário, luz, figurino etc. - é o quadro.

Juntando tudo isso, por fim, pensei: se eu fosse dançar um quadro, se um quadro fosse dançado, que quadro seria esse? Um Van Gogh, um Matisse, um Chagall, um Modigliani, um Klimt, um Magritte? Ou um Degas, um Cézanne, um Renoir? Ou um Brueghel, um Bosch, um Vermeer, um Friedrich? Ou, ainda, um Botticelli, um Velásquez, quem sabe um Caravaggio?

E você? Que quadro dançaria?


Obs. 1: Antes de enveredar pelo cinema, o diretor Wim Wenders quis (e estudou para) ser pintor.

Obs. 2: A trilha sonora do documentário é maravilhosa, mas isso é assunto para um outro post.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Miss Potter e Peter Rabbit

Em um fim de semana de 2007, tivemos o prazer de receber a visita de Beatrix Potter, Peter Rabbit e seus amigos. Eu já havia passado por eles algumas vezes na locadora, porém sem reconhecê-los até o D. trazer para casa um DVD chamado Miss Potter.

O filme é uma linda biografia de Beatrix, criadora de um dos personagens mais queridos da literatura. Peter é muito popular entre crianças e adultos em muitos países e foi em um deles — no Japão — onde o vi pela primeira vez.

Ele nasceu na Inglaterra, terra encantada de tantos escritores, ilustradores e artistas da imaginação, em uma carta escrita por Beatrix ao jovem amigo Noel Moore em 1893. Na carta, ela diz:

Meu querido Noel,
Eu não sei o que escrever a você, então, vou contar uma história sobre quatro coelhinhos cujos nomes são Flopsy, Mopsy, Cotton-tail e Peter...

E assim começa a longa aventura de Peter e seus muitos amigos: a pata Jemima Puddle-duck, o gato Tom Kitten, o sapo Jeremy Fisher, o coelho Benjamin Bunny, a porca-espinho Mrs. Tiggy-winkle e outros. Desde 1902, ano de sua primeira "aparição" nas livrarias, até hoje, The Tales of Peter Rabbit e os 22 títulos da série são os livros infantis mais vendidos em todo o mundo. Um belíssimo exemplo de uma belíssima relação entre autor, editor e leitor.

Para quem estiver curioso e quiser sentir o gostinho do filme, um clipe com a canção tema do filme, na linda voz de Katie Melua.

Um ótimo e divertido fim de semana a todos!



There's something delicious about writing the first words of a story. You can never quite tell where they'll take you.

Escrever as primeiras palavras de uma história tem algo de delicioso. Você nunca sabe aonde exatamente elas vão levar você.
Beatrix Potter
© 2012 Frederick Warne & Co Limited

quinta-feira, 22 de março de 2012

A dimensão (humana) do balé

Que o balé é lindo e emociona todo mundo já sabe. Assim como sabe que tudo que é lindo é fruto de muito trabalho. Muitas vezes, a ênfase é dada ao resultado - seja aos belos figurinos e cenários, ao palco, à beleza física e à performance dos bailarinos, às noites de estréia, aos concursos. Ou seja, à dimensão do balé como espetáculo. Mas há o dia a dia que os bailarinos enfrentam, as dúvidas, os medos, as tristezas, as angústias, o cansaço - a dimensão humana do balé. Porque nem só de sapatilhas, tutus e sorrisos são feitos os sonhos de quem quer seguir adiante e estar, ainda que sobre pontas, com os pés firmes no chão.


Fotos: Patricia Stavis

Para quem se interessar, duas reportagens (com muitas fotos) feitas na Escola do Teatro Boshoi em Joinville (SC) que dão uma idéia da dimensão humana do balé: Balé: bastidores da profissão (foto 1) e Dançar para crescer (foto 2).

O meu "treino diário" é fazer exercícios para fortalecer a musculatura (sobretudo dos pés e pernas) e alongamento. Como barra, uso o encosto de uma cadeira ou uma prateleira da minha estante de livros (que, por ser grande e pesada, não oferece riscos de acidentes). Para relaxar, massageio a planta dos pés subindo em bolinhas de tênis. Tudo em casa e sozinha. Quando surgem dúvidas, tiro-as com o professor nos dias de aula.

Continuo usando legging, blusa por cima do top e meia nas aulas. Embora tenha comprado um par de sapatilhas de meia-ponta, só as uso em casa para ir me acostumando aos poucos. Isso não me incomoda, já que o professor aconselha aos iniciantes usarem meias nas aulas e eu não estou com a menor pressa. Neste caso, o figurino pouco importa. Basta a vontade de aprender.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Bossa nova

Outro dia, minha mãe, que adora bossa nova e é fã de Nara Leão, me perguntou se eu conheço uma cantora chamada Lisa Ono. Eu já tinha ouvido falar da cantora e sabia que ela, embora brasileira, é mais conhecida no exterior. Principalmente no Japão, onde a MPB, em especial a bossa nova, é um dos gêneros musicais mais tocados e amados e é sinônimo de bom gosto e sofisticação.

A pergunta da minha mãe me fez repensar um assunto que sempre me fascinou: o olhar (e/ou o ouvir) estrangeiro. Fazendo uma pesquisa rápida de livros sobre bossa nova, percebi que o pouco que se publicou em português já foi traduzido para o inglês, francês, japonês etc. Isso sem levar em conta textos de encartes de CD's e artigos de revistas e outras publicações especializadas em música escritos originalmente em língua estrangeira. Querendo saber mais, descobri que um dos poucos livros sobre o assunto com textos e fotos é de um autor francês.


Ou seja, a MPB, em particular a bossa nova, tem uma sonoridade - e indo mais longe - um significado diferente e especial aos ouvidos estrangeiros. A tão famosa "musicalidade brasileira" é, para um estrangeiro, algo que o fascina, que o instiga - mais até do que a nós, nascidos e criados em meio a essa "musicalidade" toda e a cujos ouvidos, já tão acostumados, ela nem soa tanto como música. Como disse o poeta alemão Novalis, "tudo a uma distância vira poesia". Para nossa sorte e por uma feliz coincidência, além de Lisa Ono, Fernanda Takai gravou, há alguns anos, canções de Nara Leão e até uma versão, em japonês, de O barquinho.

Falando em bossa nova e enquanto escrevia este texto, me lembrei de uma amiga carioca que ama MPB e, mais ainda, Tom Jobim, e acho que ela vai gostar dessas capas das edições japonesas do livro Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova, de Ruy Castro, e Nara Leão: uma biografia, de Sérgio Cabral.


sábado, 17 de março de 2012

Duas semanas

Uma das coisas mais legais que tenho aprendido com o balé é que, para se aprender qualquer coisa, é preciso ingenuidade e ousadia. Porque só um ingênuo consegue acreditar que irá conseguir o que quer, mesmo ainda sem saber nem como nem quando isso irá acontecer. Mas a ingenuidade precisa da ousadia, daquele impulso que parece não ter explicação e que nos empurra para o desconhecido, nos conduz por mares nunca dantes navegados. Deve ser por isso que as crianças aprendem tão bem e tão rápido.

Esta semana, tenho andado de metrô na companhia dos personagens de A dama do cachorrinho e outros contos, de Tchekhov (apresentado, traduzido e posfaciado por Boris Schnaiderman). São textos curtos que dispensam qualquer comentário, mas um, em especial, me comoveu a tal ponto que lágrimas discretas brotaram no canto dos olhos ao término da leitura. Chama-se Um dia no campo (Cenazinha). Sem dúvida, é uma das coisas mais lindas que já li em toda a minha vida e que carregarei comigo para sempre, no coração.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Tolstói

Agora, lembrando-me daquele tempo, vejo claramente que minha fé, ou aquilo que, além dos instintos animais, impulsionava minha vida, minha única e verdadeira fé, era a fé no autoaperfeiçoamento. Mas em que consistia o autoaperfeiçoamento e qual era seu objetivo eu não saberia dizer. Procurava aperfeiçoar-me intelectualmente — estudava tudo o que podia e tudo o que a vida punha diante de mim; procurava aperfeiçoar minha força de vontade — criava regras para mim mesmo e me esforçava para segui-las; aperfeiçoava-me fisicamente, com a ajuda de diferentes exercícios aprimorava minha força e destreza, e através de diversas privações aprendia a ser mais resistente e a ter mais paciência. Tudo isso eu considerava autoaperfeiçoamento.

Liev Tolstói (Os últimos dias, tradução de Anastassia Bytsenko e outros)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Se Tchekhov e Hemingway fossem bailarinos...

Write as much as you can!! Write, write, write till your fingers break! 
Anton Tchekhov

Digamos que ele [aspirante a escritor] devia enforcar-se por ter descoberto que escrever bem é tremendamente difícil. Depois, devia ser esquartejado sem piedade e forçado por si próprio a escrever tão bem possível para o resto da vida. Pelo menos, teria logo a história do enforcamento para começar.
Ernest Hemingway


Parece que a literatura e o balé - assim como tudo que exige e demanda esforço, dedicação, concentração, alma, corpo, força, resistência, tempo e paciência - têm muito mais em comum do que se imagina. Além do amor e do trabalho, é necessário entrega.

quinta-feira, 8 de março de 2012

En pointe!


EN POINTE! from The Apiary on Vimeo.

Hoje eu comprei meu primeiro par de sapatilhas (meia-ponta) e, pensando em como costurar os elásticos, encontrei por acaso este vídeo, que eu adorei.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Uma jóia*



Assisti a este vídeo no blogue da professora de balé Renata Sanches e fiquei maravilhada. Impossível não se deixar encantar pela leveza, graciosidade e elegância dos bailarinos. O vídeo foi feito por um professor da academia do balé Bolshoi, da Rússia. Eu, que anteontem tive a minha primeira aula de balé clássico, estou cada vez mais convencida de que, se os sonhos fossem uma dança, essa dança seria o balé.

Dedico esta jóia a todos os bailarinos, de todas as idades, de todos os lugares, que vêem o balé não só como uma instituição, uma escola, mas como um aprendizado de vida.

*De acordo com a nova ortografia, o correto é "joia". Mas como este espaço é pessoal e eu prefiro a grafia antiga, escrevi "jóia" (o mesmo vale para quaisquer palavras usadas em textos de cunho pessoal).

O delírio de Brás Cubas

Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. (...) Os séculos desfilavam em turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim - flagelos e delícias -, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo.  
(...)

Cada século trazia a sua porção de sombra e luz, de apatia e de combate, de verdade e erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia de Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último - o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente, um nevoeiro cobriu tudo - menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel... 
Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Extrapolar a página

Pegue um livro de poesia. Abra numa página qualquer. Escolha um verso, transcreva-o no papel e prossiga a partir dali. Um amigo meu chama isso de “extrapolar a página”. A vantagem é que, se escolhermos um bom verso, já temos meio caminho andado. “Morrerei em Paris, num dia chuvoso. (…). Será numa quinta-feira”, do poeta Cesar Vallejo: “Morrerei numa segunda-feira às onze horas; numa sexta-feira às três da tarde, dirigindo um trator em Dakota do Sul; numa delicatessen no Brooklyn”, e assim por diante. Sempre que se sentir travado, reescreva a primeira frase e e siga em frente. Isso lhe dá a chance de começar de novo e tomar uma nova direção - “Não quero morrer e não importa se for em Paris, Moscou ou Youngstown, Ohio”. 
 Natalie Goldberg (Escrevendo com a alma, tradução de Camila Lopes Campolino)

Imagem e beleza

A beleza não está e não se encerra na imagem. A beleza está para além da imagem. A imagem nada mais é do que uma ferramenta. A imagem desperta, provoca sentidos, sensações. Quem vê beleza apenas na imagem torna-se escravo da imagem. A imagem é um buraco na fechadura. Quem se detém na imagem admira nada mais do que um buraco. É como contentar-se em ficar parado diante de uma porta, quando não só é possível abri-la como entrar em um outro mundo.

A beleza não se limita a uma experiência estética. A beleza é filosofia. Não é somente com os olhos e com o coração que se chega à beleza, mas com o pensamento.

Tempo e memória

I wanted to write a book about time and memory, about what time does to memory, how it changes it, and what memory does to time. It's also a book about discovering at a certain point in your life that some key things that you've always believed were wrong. This is something that I started thinking about a few years ago, and it's probably one of the preoccupations that you have as you age. You have your own memories of life, you've got the story that you tell mainly to yourself about what your life has been. And every so often these certainties are not. Something happens, someone reports something from 20 or 30 years ago, and you realize that what you'd believed is not the case.  
Julian Barnes (sobre seu último livro, The sense of an ending) 

Fonte: PBS Newshour

sábado, 3 de março de 2012

Milton e Manaus

O verdadeiro lugar onde o escritor se manifesta em mim é no espaço da memória, quase sinônimo de imaginação. Tudo que escrevi até hoje está ligado às imagens da minha infância e adolescência em Manaus. Essa memória contém tudo que é necessário ao romancista. É isso que provoca uma aflição, um desejo de escrever. Quem viveu intensamente até os vinte anos, como eu, é só esperar mais uns quinze para começar a escrever. 
Nunca cultuei o lugar de escrever. Principalmente porque morei em sete cidades ao longo de uns vinte anos e mesmo nessas cidades eu mudava bastante. Nunca tive um lugar fixo e me habituei a isso. Hoje em dia basta um lugar isolado com o mínimo de tranqüilidade. Até porque o verdadeiro lugar está no imaginário. O impulso da escrita, da entrega ao texto, depende mais de um estado de espírito que de um lugar específico. Isolamento e concentração. É tudo que preciso.  
Escrevo à mão por causa da minha lentidão. O contato direto com as palavras é mais adequado ao ritmo. O computador seria muito rápido. No computador reescrevo, mas as idéias originais são escritas à mão. No papel há espaço para a dispersão, também necessária. Se um parágrafo está difícil, desenho, escrevo bobagens, brinco com as palavras. O computador não permitiria. A máquina me cobra exatidão e velocidade o tempo todo. Sou inexato e lento. 
Milton Hatoum (O lugar do escritor, Eder Chiodetto)

Li Órfãos do Eldorado no avião que me levava de Brasília para Manaus. Não sei se gostei tanto de Manaus por causa do livro ou se passei a gostar mais ainda do livro e do autor por causa de Manaus. Só sei que Milton e Manaus, como muitas pessoas e lugares, tornaram-se indissociáveis. Como carne e osso, como dedo e unha.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O escritor segundo Pamuk

O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou a tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro; cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. Esse homem - ou essa mulher - pode usar uma máquina de escrever, aproveitar as facilidades de um computador ou escrever com caneta no papel, como venho fazendo há trinta anos. Enquanto escreve, pode tomar chá ou café, ou fumar. De vez em quando, pode se levantar e olhar pela janela as crianças que brincam na rua e, se tiver sorte, contemplar algumas árvores e uma bela vista, ou apenas topar com uma parede escura. Pode escrever poemas, peças de teatro ou romances, como eu. Mas todas essas particularidades só vêm depois da decisão crucial de sentar-se diante da mesa e, pacientemente, voltar-se para dentro. Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma - com paciência, obstinação e alegria. Enquanto passo os dias, os meses, os anos sentado à minha mesa, acrescentando pouco a pouco novas palavras à página em branco, sinto-me como se criasse um mundo novo, como se trouxesse à vida aquela outra pessoa que existe dentro de mim, da mesma forma como alguém poderia construir uma ponte ou uma abóbada, pedra por pedra. As pedras que usamos, nós os escritores, são as palavras. Quando as colhemos com as mãos - tentando intuir a maneira como cada uma se conecta às outras, contemplando-as às vezes de longe, às vezes quase chegando a acariciá-las com os dedos e a ponta da caneta, sopesando-as, virando-as de um lado e de outro, ano após ano, sempre com paciência e esperança -, criamos novos mundos.

Orhan Pamuk (A maleta do meu pai, tradução de Sergio Flaksman)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Geografia sentimental

Às vezes, penso que ficar alegre ou triste é totalmente diferente quando se está em um determinado lugar e não em outro. Há lugares que tornam certos sentimentos mais ou menos intensos. Quando estou triste, penso em Roma ou Veneza. Quando estou contente, feliz, penso em Paris. Quando estou pensativa e introspectiva, penso no Japão. Se sonho acordada, penso em Praga.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Janelas do mundo

Ilustração de Matteo Pericoli (clique para aumentar)


I sometimes proudly declare I am a writer who wrote a historical novel, “My Name is Red,” set in a location constantly before my eyes. To the popular question inquisitive guests and visiting journalists ask — “Doesn’t this wonderful view distract you?” — my answer is no. But I know some part of me is always busy with some part of the landscape, following the movements of the seagulls, trees and shadows, spotting boats and checking to see that the world is always there, always interesting and always a challenge to write about: an assurance that a writer needs to continue to write and a reader needs to continue to read.
Orhan Pamuk 

Meu amor por janelas é antigo. Muito antes da internet, eu me imaginava andando pelo mundo e tirando fotos de quartos, janelas e estações de metrô. Sempre fui colecionadora de lugares e, por conseqüência, de personagens, de histórias. Hoje em dia, isso é tão comum que até perdeu um pouco da graça. Mas existem exceções. A série Windows on the World, publicada no The New York Times e ilustrada por Matteo Pericoli, é uma dessas preciosidades que a gente encontra sem querer e que, despretensiosamente, fazem do mundo um lugar ainda surpreendente, apesar desse bombardeio de imagens que sofremos a cada segundo e que torna tudo tão banal, fugaz, momentâneo.

São treze janelas, treze autores, treze depoimentos, treze desenhos, treze lugares diferentes pelo mundo. A minha preferida é Turkish Delight (com o escritor turco Orhan Pamuk), que abre a série e ilustra este post. Mas lembro que vale a pena caminhar até cada uma dessas janelas e imaginar-se ali, olhando cada paisagem.

Daniel Kehlmann (Berlim, Alemanha)
Andrea Levy (Londres, Inglaterra)
Ryu Murakami (Tóquio, Japão)
Chimamanda Ngozi Adichie (Lagos, Nigéria)
María Kodama e Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina)
Rana Dasgupta (Nova Déli, Índia)
Nadine Gordimer (Joanesburgo, África do Sul)
Alaa Al Aswany  (Cairo, Egito)
Richard Flanagan (Ilha de Bruny, Austrália)
Marina Endicott (Edmonton, Canadá)
Nuruddin Farah (Mogadishu, Somália)
Elmore Leonard (Detroit, EUA)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A casa e a mala

Levou exatamente uma semana. Uma semana para descer todas as caixas, tirar todas as coisas de dentro delas, separar as que ficariam das que seriam doadas ou iriam para o lixo-reciclagem.

Uma semana limpando, arrumando, reagrupando, reorganizando. Foi como tirar a roupa, tomar banho e botar para lavar. As coisas que ficaram só ficaram porque realmente estão sendo usadas e continuarão sendo por um bom tempo. Tentamos reduzir ao máximo os espaços ocupados por elas para dar lugar ao vazio. Aqui ele é mais do que benvindo. O vazio não no sentido de oco, estéril. O vazio que significa possibilidade, abertura, pausa. O vazio que é o silêncio. O vazio que é contemplação. O vazio por onde a energia pode fluir com mais liberdade, com mais vida.

Percebi que usávamos muito a palavra "livrar" durante a arrumação. Livrar tem a ver com livre, com liberdade. Livrar caixas, prateleiras, baús, gavetas. Aproveitar ao máximo cada canto para deixar o espaço o mais aberto e livre de coisas possível. Dar valor àquelas que realmente importam. Saber dar o devido valor a elas. Reconhecê-las pelo nome, pela história de cada uma.

Sinto que a casa respira melhor. Nós respiramos melhor. De alívio, de leveza. O carnaval foi assim. Bom para por a casa e a vida em ordem e para a gente poder se dedicar ao que importa de verdade.

Assim como a nossa mala quando saímos em viagem é a menor e mais leve possível, queremos que a nossa casa seja leve e ganhe cada vez mais espaço não para ser ocupado, mas para ser livre.

Para quem mudou não só de casa como de cidade, de estado e de país nove vezes em três décadas, o que dá uma média de três anos em cada endereço, é natural ter só aquilo que vale a pena ter.

Em tempo: nos últimos três anos, esta foi a terceira ou quarta vez que demos, como dizem por aí, uma geral na casa. Percebi que cada vez que isso acontece, a vontade de querer (re)ter coisas diminui na mesma proporção que aumenta a falta de dó na hora de passá-las adiante. Ainda falta fazer uma caixa para mandar para os filhos de uma amiga (vai ser uma surpresa) e o pessoal do orfanato vir buscar as últimas doações.

O escritor ilhado

En el momento en que un escritor deja de mirar a su alrededor, deja de preocuparse por el "estado" o el "futuro de la literatura" en su país o en su lengua -descubre que eso es lo que menos le importa y que además no es responsabilidad suya-, y se dedica a lo que le toca dedicarse, es decir, a escribir su obra como si no hubiera ninguna otra en el mundo, en ese momento comienza a sentirse aislado. En parte por su propia voluntad, en parte porque no le queda más remedio si quiere sacar adelante sus escritos. 
(...)

Porque sólo si trabaja en la falsa creencia de que su libro es el único libro existente en el mundo, logrará sacarlo adelante y completarlo. Si levanta la cabeza de la máquina o del ordenador -yo escribo aún a máquina-, si mira hacia el pasado o hacia el futuro y ve su trabajo reducido a un nombre más en una inacabable lista; o si mira hacia el presente y se distrae preguntándose cómo les va a sus colegas, qué estarán haciendo y qué han conseguido y cuánta originalidad o profundidad hay en ellos; o si piensa en sus predecesores y no digamos si se deja aplastar por cuanto de maravilloso se ha escrito antes y seguramente se escribirá después de su vacilante paso por la tierra, entonces está perdido. Por eso el escritor precisa aislarse, mientras escribe.     
Javier Marías
Fonte: El País

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Oceano

Entre um livro e um filme, fico com o livro. Se for de poesia e de um autor do século XIX, melhor ainda. Por mais elaborada e bem feita que seja uma única cena, não supera a imaginação e as infinitas sensações que um verso é capaz de despertar. Ler um poema é como flutuar no oceano, mas sem saber que é um oceano, pois é como estar em vários mundos ao mesmo tempo, e esses mundos não têm um nome ainda, até que alguém que tenha chegado até eles ouça sussurros e tente traduzi-los em palavras.

O novo chique

O novo chique é ser inteligente e (bem) pago para escrever um livro em Berlim ou Hanói.

O início

Quando termino de escrever um livro sofro uma espécie de morte. (...) Demora para a vida, com todo o seu esplendor, ressurgir diante de meus olhos. (...) É um vazio imenso, só comparável ao que sinto quando começo a escrever outro. Essa experiência é a mais solitária de todas, porque só você está lá, diante da página em branco, e só você pode preenchê-la.
Ernest Hemingway

Começar um livro novo é se defrontar com o deserto. (...) É o encontro do autor com a alma, não com o corpo do livro. O corpo vem depois, nas páginas seguintes.
Marguerite Duras

O escritor se senta diante da página em branco, pronto para escrever, disposto a ordenar em frases e parágrafos os personagens e situações que surgem em sua mente, para minutos depois se levantar, inquieto com o vendaval de idéias e informações. Um turbilhão de vozes e imagens que o fazem andar pela casa, esbarrar em cadeiras, arrumar envelopes, abrir e fechar livros, para em seguida voltar ansioso à mesa e à página que o espera. Ritual que se repete incessantemente durante o dia, até as primeiras palavras assentarem enfim no papel.
Sobre Ítalo Calvino

A cada livro que escrevo cresce em mim a certeza de que é justamente essa tortura, de não saber o que virá adiante, nas próximas páginas, ou até mesmo nas próximas linhas, que mantém a vitalidade e o frescor da escrita. Sou eu que escrevo, mas, apesar disso, sou eu que parto em busca da realidade inventada por mim mesmo, e não ao contrário. Sempre volto às primeiras páginas quando fico sem inspiração, ou quando começo a me repetir. É a realidade que criamos, e pensamos que dominamos, que, na verdade, nos domina.
Gustave Flaubert

Quando passo da primeira página, tenho a certeza de que não sobreviverei às outras, porque sei de antemão o trabalho exaustivo que será, diariamente, tirar água de pedra, tornar concreto e palpável o que não passa da ilusão mais pura. Mas, ainda assim, persistirei e levarei a cada página os sustos e riscos da primeira, vou chorar e rir a cada descoberta, e cada nascimento e morte nesse livro será uma parte de mim que vive e morre também, como se eu nada soubesse de antemão sobre a história e a vida daquelas pessoas, como se cada momento fosse desconhecido e novo, e exigisse de mim também o desconhecimento e a novidade.
Anônimo
Fonte: Claudia Lage (Jornal Rascunho)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os livros de 2011

Eu nunca fui muito de fazer listas, mas em 2011 comecei a anotar todos os livros que li, aqueles que comprei ou peguei emprestado da biblioteca ao longo do ano.

Livros que li (de junho a dezembro):
. O duplo (Fiodor Dostoiévski/34)
. Pais e filhos (Ivan Turguêniev/Abril)
. Foi apenas um sonho (Richard Yates/Alfaguara)
. A prova  (Agota Kristof/Rocco)
. A terceira mentira  (Agota Kristof/Rocco)
. Um caderno e tanto (Agota Kristof/Rocco)
. Extinção (Thomas Bernhard/Companhia das Letras)
. Reflexo num olho dourado (Carson McCullers/José Olympio)
. O som e a fúria (William Faulkner/Cosacnaify)
. O vermelho e o negro (Stendhal/Globo)
. A zona do desconforto (Jonathan Franzen/Companhia das Letras)
. Sinuca embaixo d'água (Carol Bensimon/Companhia das Letras)
. Órfãos do Eldorado (Milton Hatoum/Companhia das Letras)
. Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60 (José Vicente de Souza Aguiar/Valer)
. Três contos (Gustave Flaubert/Francisco Alves)
. A morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstói/34)
. A metamorfose (Franz Kafka/Brasiliense)
. Meu Michel (Amos Oz/Companhia das Letras)
. Passageiro do fim do dia (Rubens Figueiredo/Companhia das Letras)
. Aberração (Bernardo Carvalho/Companhia das Letras)

Livros que comprei (na Festa do livro da USP):
. O vermelho e o negro (Stendhal/Cosacnaify)
. Kháji-Murat (Liev Tolstói/Cosacnaify)
. Contos de Sebastopol (Liev Tolstói/Hedra)
. Pais e filhos (Ivan Turguêniev/Cosacnaify)
. Lady Macbeth do distrito de Mitzensk (Nikolai Leskov/34)
. A morte de Ivan Ilitch (Liev Tostói/34)
. Memórias do subsolo (Fiódor Dostoiévski/34)
. O capote e outras histórias (Nikolai Gógol/34)
. A dama do cachorrinho (Anton Tchekhov/34)
. A sonata a Kreutzer (Liev Tolstói/34)
. Tolstói ou Dostoiévski (Georg Steiner/Perspectiva)

Outros livros que comprei:
. Borges oral & sete noites (Jorge Luis Borges/Companhia das Letras)
. História da eternidade (Jorge Luis Borges/Companhia das Letras)
. Atlas (Jorge Luis Borges/Companhia das Letras)
. Os últimos dias (Liev Tolstói/Penguin-Companhia)
. Os ensaios (Montaigne/Penguin-Companhia)
. Malá Strana: vestígios de Praga (Jan Neruda/Record)
. 1001 livros (Vários/Sextante)
. 501 escritores (Vários/Sextante)
. A prova (Agota Kristof/Rocco)
. A terceira mentira (Agota Kristof/Rocco)
. Um caderno e tanto (Agota Kristof/Rocco)
. Olhar escutar ler (Claude Lévi-Strauss/Companhia das Letras)
. Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60 (José Vicente de Souza Aguiar/Valer)
. A ilusão do fausto: Manaus - 1890-1920 (Edinea Mascarenhas Dias/Valer)
. A short walk in the Hindu Kush (Eric Newby/Lonely Planet)
. Mani: travels in the Southern Peloponnese (Patrick Leigh Fermor/New York Review Books)
. Só garotos (Patti Smith/Companhia das Letras)
. Anna Kariênina (Liev Tolstói/Cosacnaify)

Um livro que comecei e parei (por falta de tempo hábil, já que era da biblioteca):
. Moby Dick (Herman Melville/Cosacnaify)

Um livro que comecei e ainda não terminei:
. Anna Kariênina (Liev Tolstói/Cosacnaify)

Uma autora que nunca pensei em ler, mas que me fez mudar de idéia:
. Jane Austen

Tirando a poeira...
... de todos os meus livros de poesia (da coleção Dover Thrift Editions), especialmente John Keats e Emily Dickinson.

2011 foi o ano...
... em que retornei às minhas origens e finalmente tive a coragem de tirar da gaveta e assumir um projeto acalentado há décadas.

2012 é o ano...
... do meu retorno à poesia e da continuidade de uma longa caminhada cujo passo decisivo dei em junho de 2011.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Nas montanhas

Às vezes eu me vejo morando em um lugar de onde vejo montanhas. De manhã, faço caminhadas por uma estradinha de terra e cascalho que me leva até um lago. De lá, vejo o sol se levantar por detrás de uma imensa rocha.

Onde quer que eu esteja, o verde me abraça. O jardim entra pela janela do meu quarto de trabalho. Como é bom receber a visita de um jardim.

De vez em quando, o velho carro me leva até as montanhas. Passeamos por estradas ladeadas de pinheiros. Há muitas curvas, é preciso ter cuidado.

Ouvi dizer que aparecem ursos em alguns lugares escondidos nas montanhas. Eu nunca vi, mas parece que eles gostam de andar por aí no verão. Vão atrás de comida e, quando percebem, dão de cara com um animal que anda sobre duas pernas e quase não tem pelos. Deve ser muito estranho encontrar alguém que não seja como eles, peludos e enormes.

Eu já morei em um lugar assim, mas não sabia que era tão bom.

O simples não é tão simples

Por que o simples, em vez de ser mais acessível, é sempre mais caro?

Porque o simples, ao contrário do complicado, é raro. Simplicidade pode ser confundida com falta de graça, de cor, de brilho. Há quem odeie o simples por achá-lo sem classe, sem gosto, sem valor.

Eu adoro o simples. Porque é muito mais difícil dizer algo com aparentemente tão pouco. Porque há poucos olhos que enxergam além da quantidade. Porque o simples é sinônimo de qualidade. É muito mais difícil encontrar a beleza em um rosto sem maquiagem, em um corpo sem roupas, malhação ou silicone. Porque o simples é o mais difícil de reconhecer e aceitar. Porque o simples no desafia a enfrentar nossa própria incapacidade de enxergá-lo e apreciá-lo.

Menos é mais. Sempre. Ainda que mais difícil que o mais.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Brevidades

Hoje fui ao supermercado e vi que já montaram os suportes para pendurar ovos de Páscoa. Páscoa? Mas nem entramos na quaresma. Quaresma? Incrível como tudo hoje em dia é banal: natal, amor, sexo, violência, morte. Até o carnaval. Se todo ano tem, que graça tem?

* * *

Aqui em casa estamos viciados em Plants versus Zombies. Os gatos andam estranhando nosso comportamento. Humanos...

* * *

Acabo de saber que a Cosacnaify está para lançar a edição de capa dura de Guerra e paz por 119 reais. Isso significa que na Festa do livro da USP ele vai custar 60 reais. Como a pilha de livros que comprei no ano passado vai durar um bom tempo ainda, posso esperar até o fim do ano. Falando nisso, preciso retomar o Anna Kariênina. Atividades paralelas e uma nova rotina me afastaram (temporariamente) do livro. Espero que o autor não se ofenda.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A xícara e o tempo

Passei a noite de sexta e o sábado praticamente todo esvaziando, limpando e arrumando as prateleiras da minha estante de livros e a bancada que faz as vezes de mesa de escritório. A estante foi reorganizada, ganhou um novo lugar e a bancada diminuiu em um terço, o que significa que ganhamos espaço no escritório. E que espaço! Agora dá até para colocar uma bergère e uma luminária ao lado da estante, junto a uma parede de frente para a janela.

Hoje fui até uma dessas lojas que vendem coisas para casa atrás de um gaveteiro para guardar e organizar papéis e material de escritório. Quero deixar a mesa o mais livre possível. Não encontrei o gaveteiro, mas voltei com uma xícara de chá e um pires e sei que eles vão me acompanhar pelo resto da vida. Não costumo sair comprando o que vejo pela frente - aliás, fazia um bom tempo que não entrava na loja. Mas hoje, quando vi a xícara e o pires, fui imediatamente transportada para uma outra época.

Posso dizer, com orgulho, que a minha passagem para um outro século foi, literalmente, uma bela supresa. E custou menos de vinte e cinco reais.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Minimalismo?

Menos é mais. Nunca uma frase foi tão atual. Em todos os sentidos.

A minha sala não tem sofá, não tem estante, não tem mesinha. Só tatame, algumas almofadas feitas em casa e com tecido e enchimento reaproveitados, uma TV. Estou me dando por mais do que satisfeita assim.

Há uns três anos, doei dois terços da minha "biblioteca" e continuo achando que tenho muita coisa. Aquela história do monge que disse que um homem só é feliz se puder carregar o que tem é a mais pura verdade. Não ter é mais do que uma atitude, uma postura, uma escolha. É uma liber(t)ação.

Para quem cresceu lendo UM jornal diário e se sentia muito bem informada, obrigada, a internet é só um acessório. Nada mais do que isso. Felizmente, eu não dependo dela nem ela de mim.

Também não estou nem aí para a moda. Se o amarelo, o verde, o laranja ou o que quer que seja é in ou out, não é problema meu. Faz um tempo que risquei a palavra "tendência" não só do meu dicionário, mas da minha vida. E me sinto muito bem assim, é isso que importa. Mesmo que eu me sinta, às vezes, uma alienígena.

Gosto de coisas velhas, mas não sou escrava do retrô. Encontrei outras formas de matar a minha sede de passado. Não estou preocupada em mostrar ou provar aos outros que tenho ou não tenho bom gosto. Não é entupindo a minha casa e a minha vida de coisas que vou expressar minha individualidade.

Não tenho carro. Não por ser ecochata. Não tenho carro porque não preciso dele. Prefiro andar de metrô, bicicleta, trem, ônibus, bonde, carro de boi. Além de ser mais barato, não preciso me preocupar com esse hospício que é o trânsito.

Parece que alguém decidiu dar as costas para o mundo. Ok, para o mundo é meio exagero, concordo. Talvez para este nosso século (que eu não sei se é o XXI ou o XXXI).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O século XIX: Georg Friedrich Kersting (1785-1847)

 O leitor elegante (1812)

 Homem lendo sob um abajur

 Homem em sua mesa (1811)

 Caspar David Friedrich em seu estúdio (1811)

 Casal à janela (1815)

Jovem costurando sob um abajur (1823)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Bright Star



Uma das coisas mais lindas que eu já (ou)vi.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sentido

Passei a minha vida inteira procurando um sentido de estar no mundo, mas temo que ele não exista. Esta descoberta é, de longe, a mais difícil de todas, muito mais do que a infância e a adolescência juntas. Deve ser por isso que, quanto mais vivo, menos entendo o mundo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Janelas

 Caspar David Friedrich

 Pieter de Hooch

Johannes Vermeer


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Fé e trabalho

Escrever é um ato de fé. Fé em si mesmo, fé na idéia, fé no leitor. Sem fé, não é possível escrever a primeira palavra. E se o primeiro passo for dado, o trabalho fará o resto.

Pais e filhos


Os lugares por onde passavam não se podia dizer que fossem pitorescos. Campos e mais campos estendiam-se até o horizonte, ora elevando-se suavemente, ora abaixando-se de novo. Aqui e acolá viam-se pequenos bosques e depressões com uma vegetação escassa de arbustos, lembrando perfeitamente a sua representação nas antigas plantas do tempo de Catarina II. Riachos com as margens escavadas e pequenas represas gastas pelo tempo, assim como aldeias de cabanas baixas de telhados escuros e mal conservados; pequenos depósitos de debulhar o trigo, tortos e com as paredes feitas de varas trançadas; igrejas, ora de alvenaria, com o reboco gasto em alguns lugares, ora de madeira, com as cruzes inclinadas; e cemitérios devastados.  
(…)
Tudo em redor era de um verde dourado. Tudo se agitava ampla e suavemente, ondulando ao sopro de uma brisa quente. Tudo – árvores, arbustos e relva. Por toda parte vibrava interminavelmente o canto das aves que pairavam bem alto sobre os prados e saltitavam de moita em moita. Como manchas escuras no verde intenso dos campos semeados, passeavam as gralhas, que desapareciam nos campos de centeio já esbranquiçados. De quando em quando, surgiam-lhes as cabecinhas no ondulante oceano do trigal.  
(…) 
A manhã era esplêndida e fresca. Havia pequenas nuvens multicores aqui e acolá no azul claro do céu. O orvalho rebrilhava nas folhas das árvores e a erva rasteira verdejava cheia de viço e frescor. A terra úmida e preta parecia conservar ainda os vestígios da noite. No alto pairavam os cantos das aves. 
(…) 
A treva aveludada da noite encheu a janela, revelando um céu quase negro, os vultos farfalhantes das árvores e o cheiro fresco, livre e puro do ar. 
(…) 
O lampião iluminava fracamente a sala escura, perfumada e confortável. Através da cortina que se balançava levemente vinha a excitante frescura da noite, ouvia-se o seu misterioso murmúrio.

Ivan Turguêniev (tradução de Ivan Emilianovitch)

Turguêniev por Flaubert

As descrições de Turguêniev pensam.  
Gustave Flaubert (citado por Rubens Figueiredo)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Criatividade

Creativity is paradoxical. To create, a person must have knowledge but forget the knowledge, must see unexpected connections in things but not have a mental disorder, must work hard but spend time doing nothing as information incubates, must create many ideas yet most of them are useless, must look at the same thing as everyone else, yet see something different, must desire success but embrace failure, must be persistent but not stubborn, and must listen to experts but know how to disregard them.  
Michael Michalko  
Fonte: Advice to Writers

A literatura do impossível

Apaixonados pelo cinema, pela TV e pela internet, grande parte dos jovens escritores se dedica, hoje, a construir uma espécie de “novo realismo”. Imitam, assim, os grandes autores realistas do século 19, uma época em que este já era um projeto impossível. Pois hoje ele é mais impossível ainda. Hoje? Já em 1965, o escritor Elias Canetti, em um delicado ensaio de meia-dúzia de páginas, apontava o fracasso da opção realista.

(...)

Lá se vai quase meio século! E, no entanto, sufocados pela hiper-realidade virtual, hipnotizados por uma realidade que se parece com uma prisão, os jovens escritores insistem em buscar o impossível.

(...)

A ficção de nossos dias, portanto, se deseja ainda ser “realista”, não pode se limitar aos grandes painéis do contemporâneo, ou aos enredos de ação e objetividade. Precisa meter as mãos nesse grande fosso escuro, e em grande parte inviolável, no qual a realidade se triparte. Ou mais ainda: em que ela, hoje, cinqüenta anos depois do ensaio de Canneti, se fragmenta. A época dos retratistas terminou. Mesmo os mais avançados equipamentos digitais não podem dar conta do mundo em que estamos metidos.

(...)

O fracasso do realismo procede de um impasse: nenhuma imagem fixa corresponde mais à realidade em que vivemos. Para dela se aproximar, somos obrigados a manipular destroços, fragmentos, precárias simulações. A realidade não cabe mais dentro de nossa idéia de realidade. Em conseqüência, é bem mais prudente esquecer a idéia de realidade e pensar em outra coisa. Pessoalmente, acho mais útil pensar na idéia de ficção. Ou dizendo ainda melhor: de ficções.

O século 21 exige, portanto, outra idéia de literatura. É reconfortante e belo reler os realistas do século 19, mas suas narrativas, nos dias de hoje, se assemelham aos contos de fadas. Continuamos a amá-los, eles continuam a ser apaixonantes — mas já não nos servem como espelhos, já não dão conta do mundo em que somos obrigados a viver. Podemos pensar, no máximo, em uma grande malha de realidades (ficções), que lutam por novas posições, que se combatem, que se misturam, e nessa grande (mas rica) confusão levam nosso século a andar.  
José Castello  

A luta

A literatura se parece muito à luta dos samurais, mas um samurai não luta contra o outro samurai: luta contra um monstro. Além disso, ele geralmente sabe que será derrotado. Ter coragem, sabendo previamente que você será derrotado, e ir à luta: isso é a literatura.
Roberto Bolaño (citado por Enrique Vila-Matas)  
Fonte: Cosacnaify

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O silêncio

(...) O não escrever é uma forma de vida, o silêncio pode não ser uma renúncia, mas uma conquista ou afirmação, onde o não existente impõe sua existência, carregada de um significado misterioso e insondável, como uma pausa, o silêncio numa partitura musical, que pode resultar mais emocionante que uma nota.

Antonio Tabucchi (tradução de Daniel Benevides)
Fonte: Cosacnaify

Found in translation

I have always regarded translation as the best school a novelist can have. Let's agree that translators are the perfect readers: nobody reads as closely, as accurately, as sympathetically, with as much solidarity and generosity, as a translator. If this is true, then there is no better way to understand how a work of fiction works than through translation. As for my own translations, I have learned enormously from every one of them, even from the bad books: especially from the bad books, because translating them you notice firsthand the shortcuts, the lies, the cheating.
Juan Gabriel Vásquez
Fonte: The Guardian

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Wislawa Szymborska

Cat in an Empty Apartment

Die—you can’t do that to a cat.
Since what can a cat do
in an empty apartment?
Climb the walls?
Rub up against the furniture?
Nothing seems different here
but nothing is the same.
Nothing’s been moved
but there’s more space.
And at nighttime no lamps are lit.

Footsteps on the staircase,
but they’re new ones.
The hand that puts fish on the saucer
has changed, too.

Something doesn’t start
at its usual time.
Something doesn’t happen
as it should.
Someone was always, always here,
then suddenly disappeared
and stubbornly stays disappeared.

Every closet’s been examined.
Every shelf has been explored.
Excavations under the carpet turned up nothing.
A commandment was even broken:
papers scattered everywhere.
What remains to be done.
Just sleep and wait.

Just wait till he turns up,
just let him show his face.
Will he ever get a lesson
on what not to do to a cat.
Sidle toward him
as if unwilling
and ever so slow
on visibly offended paws,
and no leaps or squeals at least to start.


Tradução do polonês para o inglês de Stanisław Barańczak e Clare Cavanagh

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O século XIX: John Keats

Endymion (trecho)

O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.


Endymion (trecho)

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o'er-darkened ways:
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
'Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven's brink.



KEATS, John. "From Endymion" / "Do Endymion". In: CAMPOS,
Augusto de. Byron e Keats: Entreversos. Traduções de Augusto de Campos.
Campinas: Editora Unicamp, 2009.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O recomeço

A sensação é de alguém que acabou de voltar para casa. Estou destrancando portas e janelas, abrindo cadeados enferrujados, tirando os lençóis brancos que cobriram os móveis, contando quantas teias de aranha se formaram no cantinho mais escuro do banheiro. A água demora para sair e, quando espirra na pia, pinta de ocre o fundo branco. O piano, que permaneceu calado durante tanto tempo, solta um acorde grave, como o longo espreguiçar de quem acabou de acordar.